A
Síntese Ciência & Tecnologia
Rogério Lacaz-Ruiz Sérgio Paulo Amaral
Souto
Introdução
Um fato porém ocorreu: recebemos um e-mail que após todos os procedimentos e tentativas de conhecer sua origem chegamos a conclusão: ele veio de algum outro lugar que não o planeta Terra. Não nos cabe agora questionar o binômio presença-ausência de vida fora deste planeta, e sim o conteúdo do e-mail, que aborda um fenômeno: o da síntese. Antes de comentar as diversas denotações e conotações da palavra síntese, transcrevemos o e-mail recebido.
O mail que não veio da Terra
Date: Tue, 17 Mar 1998 11:08:00
+0100 Rogério e Sérgio Comer no McDonalds me fez pensar. Se uma pessoa tem uma idéia, e se esta idéia é boa e "dá certo", é possível vendê-la. O nome de uma lanchonete pode ser vendido com uma condição: aceitar as regras do jogo. O que vende, tem um nome a zelar e o que compra algumas regras a cumprir. E isto implica em ter um contrato, um protocolo que deve ser seguido pelas partes: aquele que vende e aqueles que compraram a idéia. No mundo globalizado parece ocorrer o mesmo. As Universidades e Institutos de Pesquisa tem produzido muita ciência e tecnologia, de modo cada vez mais uniforme. Pergunto: qual o resultado desta síntese? ? Help M Main Menu P PrevMsg -
PrevPage D Delete R Reply Imprimimos o e-mail e fomos almoçar. Gostaríamos de ter gravado nossa conversa, mas vamos tentar resgatar o conteúdo das nossas dúvidas e comentários.
As palavras e as dúvidas
Se por um lado, o processo educativo é custoso, o produtivo pode ser lúdico, como ocorrem em algumas linhas de produção no Brasil, onde empresários perceberam que seus empregados trabalham bem no ritmo do samba e uma cerveja ajuda as pessoas a contribuírem com boas idéias numa reunião informal após o trabalho. Os monges e sábios da Idade Média teriam paciência para ensinar aos louros e selvagens germânicos a cultura clássica, enquanto hoje em dia se diz que o negro africano simplesmente não é capaz de compreender a ciência e a técnica. (SAMHABER, 1965.) Se Ernst Samhaber afirmou que "A finalidade é que decide. A finalidade empresta a cada objeto sua significação e seu valor. O que de nada mais serve é posto fora", e os bárbaros do passado demoraram por incorporar a cultura, e construíram uma civilização européia, hoje se tem a tendência em induzir as pessoas do continente africano a uma produção científica e técnica, que muitas vezes para eles, não coincide com as suas finalidades como ser humano. Os seus ideais não são os mesmos dos que chegam como "colonizador" (SAMHABER, 1965.). Na realidade, durante a Idade Média a cultura humanista era algo que dizia respeito diretamente ao ser humano, enquanto que nos nossos dias, parece que a cultura tecnicista tenta substituir o ser, em troca do ter. Os valores que um ser humano possui, estão sendo substituídos em parte por algo que pode ser representado na forma de números. Por esta razão, quando se pressiona a produção em massa, fica difícil questionar o produto final. Quem trabalha mecanicamente, não está pensando por quê o faz, ou qual a finalidade, ou mesmo para quem esta servindo o que realiza. As pessoas são capazes de trocar o seu pensar pelo possuir. Isto não tem tido maiores repercussões em setores puramente criadores de bens e serviços, mas quando este tipo de atitude invade a Universidade, ela perde o que lhe é próprio: o seu espírito crítico. Sintetizar pode significar produzir algo, e no caso, parece ser algo relacionado à síntese de ciência e da tecnologia. Se Fichte diz que a Universidade é "uma escola da arte de usar cientificamente a inteligência" (PIEPER, 1989.), a dúvida é, ao nosso ver, múltipla:
i) O que está sendo sintetizado à partir do conhecimento gerado graciosamente?;
ii) Quem está sintetizando essa massa de conhecimentos "estocada" (em língua inglesa, please!)?;
iii) Quem está determinando os protocolos para a ciência?
iv) Por que as pessoas querem ou se sujeitam a produzir, importando aqui o volume, ciência e tecnologia?
v) Qual o objetivo da massificação da produção de dados e conhecimentos científicos, a quem interessa?
vi)...??? Perguntas não faltam, e respostas definitivas ainda não existem. Voltaremos ao tema da síntese, mas antes é preciso analisar o mundo globalizado, e a capacidade para produzir ciência e tecnologia versus a intenção de utilizar a informação.
A produção na Universidade
Uma Universidade pode produzir muito, mas cabe sempre a pergunta, para quem? Se a sociedade anda sedenta de saber, seriam os caríssimos e pouco acessíveis periódicos técnico-científicos o melhor meio de divulgar o produto de nossas Universidades? Os protocolos estão disponíveis à semelhança das franquias dos fast foods, e a sociedade a espera de uma resposta que não será dada pela ciência, nem pela técnica, mas pelas pessoas que são capazes de trabalhar com este tipo de produto, e dar a medida no binômio ter e ser. Cabe aqui ressaltar, que não é intenção questionar o financiamento, seja público ou privado das Universidades e muito menos os evidentes benefícios para a ciência de uma comunidade científica internacional, na qual o conhecimento seja compartilhado e discutido. A primeira vista pode parecer uma contradição, mas é somente uma questão de medida. E a medida última de todas as coisas é o ser humano. Quais os reflexos da produção científica para as sociedades incapazes de dialogarem com os seus pesquisadores, se até mesmo aqueles que estão nas Universidades estão perdendo a capacidade de avaliar o que produzem? É uma pena que não pudemos dar uma resposta diretamente ao missivista, mas temos que agradecer pela sua colaboração por nos trazer a tona um tema que merece reflexão.
O mundo globalizado
Se o tempo falta para uma visão crítica, é preciso repensar o que se faz na Universidade. A dicotomia entre a qualidade da educação superior - pesquisa e papers é marcante, e oportunamente comentada por WALTER & SAKANE (1997). Parece que os que ensinam e formam sempre estão em desvantagem em relação aos que produzem papers nas diferentes áreas de ciência e tecnologia. Nos livros e jornais se anunciam de tempos em tempos um novo avanço da ciência e da tecnologia. A notícia é interpretada pelos leitores, como um álibi para o consumir mais, para ir em direção ao prazer de ter. Parece que queremos cúmplices, e a "ciência" e a "técnica" são cúmplices abalizados. Um novo fármaco para curar os meus excessos, uma nova forma de energia, que permite mais conforto em casa e no trabalho, um novo computador, um carro novo etc e tal. Produtos que estão fora de mim, que atuam na minha pessoa, que mexem com meu ego, mas não respondem quem sou. São inúmeras as previsões, mas basta citar uma para ilustrar: "Ao olhar para o nosso mundo hoje - diz Herta Lande Seidman (1985) - posso ver dentro dos próximos quinze anos não apenas a possibilidade de produção extraterrena, que já foi indicada pelo ônibus espacial e suas experiências, mas também a possibilidade de colonização de outros planetas. Isso fará sentido à medida em que a alta tecnologia obtenha êxito em mudar tanto a capacidade material quanto humana." Será que as pessoas querem sentir a globalização como uma forma de grande espírito de solidariedade universal e espiritual, onde não exista o indivíduo, e os grandes deuses da ficção sejam reais e tenham o nome de Ciência & Tecnologia? Faz sentido pensar em mudar a capacidade humana? Quem consegue fazer uma pessoa ser mais virtuosa? "Estarias disposto a dizer-me, Sócrates, se a virtude pode ser ensinada? Ou se pode ser adquirida pelo exercício? Ou quem sabe se não é ensinável nem adquirível pela prática, mas recebida de nossa própria natureza? Ou, talvez, de outra qualquer maneira?" (PLATÃO, 1971).
Considerações finais
Parece que a síntese sempre ocorreu na história da humanidade. Esta atividade exige conhecimento da realidade, e também capacidade de análise. Se Isaac Newton e Maxwell, dentro das ciências exatas, Koch e Hook na biologia, e Aristóteles nas origens da filosofia ocidental conseguiram organizar o conhecimento, a humanidade tem a quem agradecer. No outro extremo está a figura de Galeno, que transformou a arte médica de Hipócrates numa ciência limitada. Com os dotes pessoais de escritor e uma eloqüência que supria o real, deixou uma obra capaz de dominar a mentalidade médica por quatorze séculos! Neste último exemplo, vale a pena citar textualmente Antonio Bernardes:
Se há um trabalho organizado em escala mundial para produzir novas descobertas parciais, não há evidências dos porquês desta corrida. Em resumo, ciência & tecnologia são ferramentas e não entidades divinas ou tábuas de salvação. O homem precisa lembrar que ele é a medida de todas as coisas, e existem leis na natureza. Ficam porém as dúvidas: se se venera e se exige a geração de "ciência & tecnologia" quem e onde estão àqueles que a sintetizam? E, como o custo desta geração sempre é em detrimento de interesses, pois o dinheiro e as pessoas são limitados, quem está pagando a conta, e quem está crescendo?
Referências bibliográficas BARRASS, R. Os cientistas precisam escrever: guia de redação para cientistas, engenheiros e estudantes. São Paulo : TAQ/EDUSP, 1979, p.218. BARROS, G.N.M. A idéia de Universidade. In. Josef Pieper Abertura para o todo: a chance da Universidade. São Paulo : Apel, 1989, p.14. LACAZ-RUIZ, R. Microbiologia zootécnica. São Paulo: Roca, 1992, p.9. MOTOMURA, O. Prefácio. In: John Naisbitt & Patricia Aburdene. Megatrends 2000. São Paulo : Amana-Key Editora. 1990, p.14. OLIVEIRA, A.B. Galeno. In: ______. A evolução da medicina. São Paulo : Pioneira/ Secretaria de Estado da Cultura. 1981, p.104-116. PLATÃO Diálogos: Mênon. São Paulo : Edições de Ouro. 1971, p.69. PIEPER, J. O papel das ciências. In: ______ Abertura para o todo: a chance da Universidade. São Paulo : Apel, 1989, p.30-33. SAMHABER, E. Mundo de hoje, mundo de amanhã. São Paulo : Edições Melhoramentos. 1965, p. 264-267. SEIDMAN, H.L. "A forma do futuro: o valor dos cérebros". In: Ruth Karen Rumo ao ano 2000. Rio de Janeiro : Nórdica. 1985, p.270-277. WALTER, F.; SAKANE, F.T. "Educação superior: deixem os profes-sores educarem" Revista ITA Engenharia, v.3, n.4, p.41-42, 1997. |