A Inovação Radical do Cristianismo
(conferência proferida em Madrid, em 7 de maio de 1998, como parte do concorrido curso A perspectiva cristã, ministrado no "Colegio Libre de Eméritos". Tradução e edição: Jean Lauand)

Julián Marías

 

Hoje, para concluir este curso, vou falar daquilo que chamo de "a inovação radical do cristianismo". Inovação de uma ordem de magnitude tal que, em geral, não se abarca e a maior parte das pessoas quase nem a percebe.

Há uma passagem do evangelho de São João que me parece extremamente interessante. A propósito, penso que o padroeiro dos filósofos - e que me perdoe Santo Tomás de Aquino, que o é muito merecidamente - deveria ser São Tomé(1).

Os senhores se lembram da aparição de Cristo ressuscitado a seus discípulos em um momento em que Tomé não está. E, quando lhe contam que o Senhor apareceu ressuscitado, ele duvida e diz que crerá quando o vir e quando ponha seus dedos nas chagas.

Isto costuma ser considerado como uma espécie de desconfiança ou de falta de fé... Mas é que os outros apóstolos o viram e Tomé só tem o que lhe contam, é algo de que só ouve dizer e mais nada e ele pede para ver, ou seja, situar-se no mesmo nível dos outros.

E quando ocorre a segunda aparição de Jesus, a reação de Tomé é extraordinária: "O Kyriós mou; o Theós mou" - "Meu Senhor e meu Deus!". É a proclamação da crença na divindade ante a pessoa humana - física, visível, tangível - de Jesus. É justamente a aceitação plena, sem reservas, da evidência.

E é esta a atitude de um filósofo: pedir evidência e, quando a tem, aceitá-la e reconhecê-la sem reservas. É uma conduta exemplar. Não devemos nos esquecer que Jesus diz: "Porque me viste, creste; bem-aventurados os que, sem ver, crêem". Isto diz respeito a nós, a todos os outros, que - é evidente - estamos no caso de não o ver e podemos crer com um esforço, com uma dificuldade, com essa ajuda sobrenatural, que se chama fé: que nos é dada, não a temos por nós mesmos, e podemos aceitá-la ou recusá-la; podemos fazer pouco caso ou ignorá-la.

Esta cena parece-me arrebatadora, absolutamente maravilhosa. E penso que é a expressão de uma tríplice situação: os apóstolos recebem a aparição de Cristo, vêem-no; Tomé, que não o viu, duvida, vacila, não confia plenamente, até que o vê; e nós, que não o vemos, podemos, afinal de contas (como quem diz: "vamos examinar este caso"), aceitar ou não.

Penso que o caso de Tomé é, além do mais, muito revelador: Cristo está ali, diante dos apóstolos e de Tomé, e ele o reconhece imediatamente como Senhor e Deus: há um imediato e total reconhecimento da divindade de Cristo. Isto é de capital importância, porque precisamente a Encarnação (como vimos neste curso) é a justificação do inevitável antropomorfismo. Deus tem que ser imaginado como assemelhado, de certo modo, a um homem, a modo humano, que é o que nós entendemos: o que é humano é que é plenamente inteligível para nós, o que, evidentemente, justifica-se no fato da Encarnação. Porque Deus se fez homem: não é que tenha tomado figura humana; mas assumiu a condição humana, a realidade humana e, portanto, o vemos como homem; e, aqueles que viveram em seu tempo, conviveram com ele, comeram com ele, conversaram com ele...

Mas, ele disse: "Quem vê a mim, vê o Pai". Isto é, há a presença real, efetiva de Deus como tal, na figura humana, na realidade humana de Cristo. E isto, evidentemente, permite imaginá-lo, permite amá-lo. É muito difícil o conceito de "amor de Deus", se se limita, digamos, a "cumprimento dos mandamentos": isso pode ser conseqüência do "amor a Deus" (cumprem-se os mandamentos porque se ama a Deus), mas o amor é diferente: o amor em sentido imediato, no sentido de uma vivência humana, o amor é mais do que isso e é possível precisamente pela Encarnação.

Consideremos que esse homem - a quem vemos como homem - é também Deus e, portanto, é o Criador, é o Providente, é o Salvador, é a realidade independente, enfim, possuidor de todos os atributos: é infinito, é onisciente..., toda a realidade imaginável e muito mais que imaginável; e, de certo modo, está situado entre nós, tornou-se visível, pensável, imaginável, amável...

Ora, o cristão conta com isso e - é uma idéia que não se costuma ver enfatizada - o saldo do balanço que ele faz da realidade é positivo, porque, afinal, na realidade, nisso que chamamos de realidade, há uma parcela de soma que é Deus! E, portanto, o resultado é extraordinariamente positivo. Independentemente de tudo o mais. Por maiores que sejam as dificuldades, as limitações, os males..., o resultado final, o total, é absolutamente positivo, porque tudo o que possamos encontrar de negativo, de mau, de aflitivo, de deficiente na realidade criada, tudo isso se anula diante da suprema realidade de Deus, exuberantissimus.

E assim, em última instância, o cristão não pode ser pessimista, não; pode ser pessimista, do ponto de vista, digamos, de sua vida, que pode ser difícil, penosa, triste; mas não quanto ao juízo que formou sobre a realidade, porque seria esquecer de Deus: a maior trapaça que se pode imaginar.

Não cabe o pessimismo para o cristão nem do ponto de vista do homem. Em outras formas de religião, de religião monoteísta, até, de certo modo, em boa parte da vivência do judaísmo, poder-se-ia dizer: Deus, sim, é a realidade perfeita e superabundante, mas eu, eu sou uma realidade mínima, malograda, desventurada, infeliz, desgraçada. E nem sequer isso o cristão pode dizer, porque sabe que foi feito à imagem e semelhança de Deus e, portanto, pertence-lhe, em participação, essa realidade.

Não cabe o pessimismo porque ele sabe, além do mais, que Deus é amor. Os senhores me ouviram insistir no fato da imensa magnitude infinita de Deus, sua incomparabilidade com todo o restante, essa distância absoluta encontra seu cume no amor, porque Deus é amor e este justamente é o vínculo entre Deus e as criaturas.

Lembremo-nos daquela frase esplêndida de Santo Agostinho: "et inhorresco et inardesco", é tão diferente de mim, que me é tremendo (o mysterium tremendum de que fala Rudolf Otto)... sim, mas ao mesmo tempo, sou semelhante a ele, sou imagem dele: et inardesco - inflamo-me no amor. É essa situação dual: certamente, não podemos nos esquecer da distância, mas, ao mesmo tempo, há proximidade, o caráter de imagem.

Portanto, esta criatura amorosa, esta imagem é uma criatura amorosa e não somente inteligente ou racional, mas primariamente amorosa, é uma criatura amada por Deus. O homem pode não amar a Deus, pode amá-lo pouco ou amá-lo de má maneira, mas o que é certo é que Deus o ama. Precisamente com isto se pode contar: o homem é uma criatura amada por Deus e, portanto, abrigada, protegida, agasalhada por ele e para sempre.

Parece-me inverossímil que Deus nos ame só "por um tempo", o tempo em que estamos no mundo, isto é inimaginável... É evidente que o amor de Deus é para sempre, o que quer dizer, o homem é imortal e que o espera a ressurreição, porque é alguém corporal e portanto, sua corporeidade também tem que continuar vivendo. E temos de contar com isto; esta é justamente a inovação do cristianismo...

E então, se por um lado, diríamos, o balanço global do real (que inclui Deus), naturalmente é positivo e maravilhoso, por outro lado, o balanço particular, de homem, que cada um de nós faz, também ele, não pode, afinal - apesar de tudo - ser negativo. Consideremos o caso destas pessoas velhas, doentes, cheias de achaques, solitárias, que já não fazem nada, que parecem não poder esperar nada. Eu me comovo ao ver que esses velhos decrépitos vão à igreja e - se não estão dormindo... - contam precisamente com isto: com que sua vida - que não promete nada senão achaques, dificuldades e dores aqui neste mundo -, está contudo aberta à esperança e contam com uma vida interminável, uma vida perdurável, com perfeição, com um corpo glorioso e não o corpo lamentável, calamitoso, indolente que têm.

Por isso penso que não há infâmia maior do que a de tentar arrebatar esta esperança aos homens que a têm. E essa infâmia é praticada constantemente: há muitas pessoas que se empenham nisto!

Mas, ainda há mais: reparemos na perspectiva em que nos situamos todo esse tempo em que estamos analisando essa questão. Essa vida perdurável, essa vida na qual se confia e se espera, é a nossa, a de cada um, não é uma vida abstrata, é a minha, a tua, a dele, a dela, a de cada um de nós, com toda sua concreção, com seus projetos, com seus vínculos, com seus amores, com suas necessidades, com sua vocação. Senão, não seria nossa vida, seria outra coisa, não teria sentido.

A vida de cada um é insubstituível; uma espécie de vida abstrata, homogênea, não seria nossa vida. Por isso, tenho insistido muito em que vejo a outra vida como a realização dos projetos, das trajetórias autênticas de nossa vida: as que imaginamos, as que quisemos realizar, as que não pudemos realizar - ou só pudemos realizar muito parcialmente - e, seria portanto, a realização plena - com nossas conexões, com nossos amores, com as pessoas que, para nós, foram insubstituíveis e até com o aspecto da vida, provavelmente transfigurada, variada, situada em outro plano...

Eu não sei..., mas penso que até a profissão que tivemos - na medida em que tenha sido uma autêntica profissão -, terá, de algum modo, que se realizar: o homem ou a mulher que dedicaram cinqüenta, sessenta ou oitenta anos de sua vida a fazer certas coisas, com vocação..., não digo que será literalmente a profissão, porque será outro mundo, mas que haverá algo análogo, algo que seja como a perfeição, a sublimação disso que fizeram, do que quiseram fazer. Senão, a vida perdurável não seria vida, seria uma abstração, seria simplesmente ficar, de um modo mais ou menos inerte e isso não pode ser, não tem nenhum sentido.

Tenham em conta, portanto, que essa vida nos foi dada - evidentemente não somos criadores de nossa vida - mas somos nós que a fazemos; com as coisas, com os recursos todos, mas nós a fazemos: imaginamo-la, projetamo-la, escolhemos em cada momento, decidimos em cada momento, acertando ou errando, escolhemos quem vamos ser, quem queremos ser; não o que somos - isso nos é dado -, mas quem somos, fazemos quem queremos ser; conseguindo com maior ou menor plenitude, com maior ou menor perfeição, e justamente - e aí está a responsabilidade, que acompanha o cristão - escolhemos - nem mais nem menos - quem vamos ser para sempre!

Essa idéia de que "tudo passa" não é verdade: para o cristianismo não passa, fica: e fica perpetuado. Cada um de nós será, diríamos, quem quis (e talvez não tenha podido) e precisamente suprir-se-á o que tínhamos podido ter sido, o que tínhamos querido... E considerem esse texto evangélico, que fala de que haverá que dar contas até de um copo de água ou de uma palavra ociosa; é um tanto ameaçador e terrível, mas traz esperança também: porque o que fazemos, o que escolhemos em cada momento, escolhemos para sempre. Se escolhemos bem, teremos essa realidade, se escolhemos mal, teremos essa má realidade ou essa falta de realidade que nos aniquila.

Não somos criadores, mas de certo modo somos autores de nós mesmos, o que de repente confere a esta vida uma importância imensa. Como sabem, é muito freqüente entre as pessoas que são muito piedosas, o desdém por esta vida: esta vida não importa, estamos aqui de passagem. Não, não! Se precisamente é nessa porção de realidade que escolhemos quem vamos ser..., nem mais nem menos; e portanto, isso que fazemos em cada instante, é absolutamente capital, porque vai ser para sempre, sem que possa passar.

Por isso emprego, às vezes, um conceito - que não se costuma aplicar - e digo que se trata de ter uma vida apresentável. Esse adjetivo apresentável não é muito empregado, não é muito apreciado, paciência!

Apresentável quer dizer precisamente aquilo com que que uma pessoa possa se apresentar diante de Deus sem demasiada angústia. O cristão - não sei - quando morre poderá dizer a Deus: "sou só isto, bem pouca coisa", mas aqui está, dá para apresentar.

É isto, que me parece enormemente importante, mas curiosamente é pouco considerado. É o mais evidente, o mais elementar e no entanto, ninguém pensa muito nisso, apesar dos dois mil anos em que o mundo está situado nessa perspectiva.

Tudo o que acabo de dizer é conhecido por todo cristão e pelo não-cristão que vive sob o influxo do cristianismo, que recebeu essa mensagem, ainda que não participe dela, ainda que não creia. Todo homem dos muitos países do Ocidente, Europa, América e alguns mais e minorias de outros, tem participado dessa perspectiva cristã que estamos examinando nestas vinte e quatro conferências. E, no entanto, há uma curiosa capacidade de não levar a sério as coisas, de resvalar sobre o que é mais importante, de resvalar sobre si mesmo!

Não se leva a vida a sério, mas a vida é séria. Eu recordo às vezes o que diz Rubén Darío, com grande perspicácia de poeta, sobre a vida: "La vida es dura. Amarga y pesa", "la vida es dulce y bella, la vida es dulce y seria". A vida é tudo isso e talvez o mais importante é que é séria.

Eu sempre pensei que há vidas lamentáveis, há homens malvados, há homens estúpidos, há homens frívolos. E, no entanto, a vida deles - se a encaramos como tal - é sempre algo sério. A vida é séria, sempre. Quando encaramos a vida como vida - não como organismo, mas como uma vida humana - descobrimos esse fundo inevitável de seriedade. Por isso, é preciso sempre levar as pessoas a sério...

Por isso, em última instância, não se pode desprezar ninguém; pode-se ter pena, mas não desprezar. Pode-se, naturalmente, desprezar a conduta, podem-se desprezar os atos, mas a própria pessoa, em sua vida, que é sempre cheia de afazeres, que é dramática, que é escolhida passo a passo - isto é serio e não se pode desprezar.

E o cristianismo consiste nisto - não é que ensine ou que pregue isto; consiste nisto. Parte da idéia de criação, de providência, do amor, da promessa, da imagem de Deus, da promessa de que esta vida, esta pessoa, cada um de nós, é amado e amado para sempre, destinado à salvação, destinado a uma vida sob o olhar de Deus, nas mãos de Deus, em solidão, mas ao mesmo tempo em liberdade..., sob uma luz que ilumina e penso que dá valor a tudo.

Por isso, há outra idéia - também muito difundida entre pessoas muito religiosas - equivocada: a do desapego, desapegar-se das paixões humanas, dos amores humanos, dos interesses humanos, da criação... , isso me parece, pelo menos, uma irreverência! Se é o contrário: eu penso que estaríamos muito mais apegados aos que nos são caros, se os víssemos diante de Deus, à luz de Deus.

Há uma experiência que está ao alcance de todos nós e que, por vezes, a fazemos: quando perdemos um grande amor, uma pessoa querida, nos surpreendemos de repente amando menos a todo mundo e todas as coisas e as pessoas nos interessam menos. E isto porque ficamos só com a metade de nós mesmos e, justamente por isso, tudo decai, tudo se debilita, tudo se torna precário e pobre e custa um imenso esforço recuperar - na medida do possível... - recuperar essa perda e voltar a ter apego pelas coisas, pelas pessoas e, principalmente, voltar a amar a realidade como antes ou quase como antes.

Imaginem, portanto, o que significaria, o que significará, esperarmos na outra vida justamente a presença de Deus, a convivência com Deus. Porque se trata de participação na vida dele. Também não se pensa muito nisto: participar na vida divina. Fala-se em vida eterna (prefiro a expressão "vida perdurável", porque nossa vida não é propriamente eterna, ela teve um começo ainda que não termine. Além do mais, ela não é integralmente presente como a de Deus, é sucessiva, possuimo-la de modo parcial e imperfeito, mas se pode dizer eterna, no sentido de que é participação da vida divina, que, essa sim, é eterna: rigorosa e plenamente eterna). E, na medida em que se dá participação nela é que se dá vida no sentido mais alto, no sentido pleno, sem deixar de ser, insisto, obra nossa e daí, evidentemente, o cristianismo inclui uma promessa de deificação, de que seremos filhos de Deus, somos filhos de Deus.

O cristão espera participar na vida divina e São Paulo fala de ver a Deus cara a cara, sim, cara a cara, mas, claro, nunca inteiramente. Pelo contrário, isso seria o grande projeto: descobrir a Deus, penetrar nele, conhecê-lo, entendê-lo, adorá-lo por toda a eternidade, que não é intemporalidade, é supra-temporalidade... Não creio que o tempo seja excluído, mas superado em outra forma que não podemos nem sequer imaginar, porque - além do mais - tudo isso será a grande surpresa...

As pessoas que não crêem na outra vida, que pensam que tudo se acaba, que surpresa vão ter, quando se encontrem vivendo e como! Pensem, por exemplo, no suicida. O suicida quer acabar e, de repente, perceberá que ele não se pode destruir.

Que problema, não? Que surpresa! Dá-se um tiro ou joga-se pela janela, pensando que tudo vai acabar e quando chega ao chão, repara que acabou mal (e não acabou...).

Creio que isto também é muito pouco considerado; os suicidas não consideram isto, se considerassem não se atreveriam a suicidar-se: têm horror e medo à vida, mas deveriam temer, mais ainda, o resultado do suicídio.

Em tudo isto que estou falando, não há nada de novo: faz parte da perspectiva na qual estamos; nada é obscuro, nada é novo, nada, nem um átomo. Os senhores sabem tudo o que estou dizendo, como o sabem milhões e milhões de pessoas, já há dois mil anos. No entanto, há um esquecimento, e isto é um pouco inquietante. Como podemos esquecer do que é mais importante?

O problema está em que temos algo que não acabamos de possuir. No fundo, este curso é um convite a tomar posse do que é nosso, do que já temos, do que sabemos, do que não podemos evitar e, claro, ao final descobrimos, uma enorme originalidade, descobrimos que o cristianismo é uma inovação, até - insisto neste ponto - até em relação ao judaísmo, que é a primeira fase da revelação , evidentemente.

Pascal contrapunha ao Deus dos filósofos e dos eruditos (“les philosophes et les savants”, dizia ele) o Deus de Abraão, Isaac e Jacó. Mas não podemos deter-nos no Deus de Abraão, Isaac e Jacó; era um Deus revelado inicialmente, parcialmente; era o mesmo Deus, mas, de modo algum, plenamente.

O cristianismo representa uma radical inovação e não termina; por isso, parece-me um erro ater-se só à Escritura, como tende a fazer o protestantismo, omitindo a história, omitindo o que se chama de tradição, a vida da Igreja, a vida dos homens religiosos, dos homens cristãos, que não termina, nem tem porque terminar.

Eu encontro filosoficamente, à margem de toda fé, um argumento capital, decisivo para pensar na imortalidade. Tenho dito, às vezes, desde há muitos anos, que o homem é uma estrutura fechada que desemboca na morte, o homem é mortal e moriturus, tem que morrer. Mas a vida humana, não; a vida humana é projetiva, consiste em projeto e não há razão nenhuma para não se projetar. Por que vou deixar de projetar? Meu organismo poderá funcionar mal, ou destruir-se, por uma doença, por velhice, por um acidente, pelo que for. Sim, mas por que vou deixar de projetar?, eu vou continuar projetando e isso, então, postula a imortalidade, a condição projetiva da vida humana, da vida biográfica, não da vida biológica.

Como vêem, quando consideramos as coisas deste modo, quanto mais se olha, mais novo, mais inovação parece, mais original, mais diferente de todos os outros. Até, repito, em relação a nosso antecedente imediato, próximo, que é o judaísmo, para não falar dos desvios ou das simplificações posteriores, ou das formas de religião que não contam com um Deus pessoal, com um Deus único.

Como vêem, a perspectiva cristã não se apresenta como uma posição e, menos ainda, como uma posição inerte. Ela é, antes, uma tarefa, um empreendimento. Consiste em algo, diante do qual temos que tomar posição e tomar posição quer dizer: pensar, repensar, imaginar e, afinal, lançar, tratar de exercer nossa vida - este trecho de nossa vida que acontecerá no planeta Terra (ou talvez em algum outro planeta, isto não está excluído) - em que podemos justamente imaginar a outra, escolhê-la; submeter-nos precisamente a essa escolha, a nossa decisão: para o bem ou para o mal.

Muito obrigado pela prolongada atenção.

(1). No original: "el otro Santo Tomás". Como se sabe, a distinção entre os nomes Tomé e Tomás é própria da língua portuguesa. N. do E.