Uma Filosofia de Ensino Baseada no Valor
Fundamental do Projeto Básico

 

 

Manfred Fehr
Universidade Federal de Uberlândia
(fehrsilva@mailcity.com)
C.P.: 811, 38400-974 Uberlândia MG

ABSTRACT

This study takes a pragmatic approach to keeping abreast of ever increasing information in the engineering field without sacrificing quality of formation. Arguments matured in many years of experience challenge the present preference for a theoretical formation based on fundamentals. The student subjected to theoretical indoctrination during 90% of study time develops a false illusion of confidence in his or her preparation. An extensive list of examples illustrates the deception of student and instructor alike with the results of this philosophy of stressing fundamentals. The proposal inverts the sequence of apprenticeship. Basic design becomes the central theme of course work, with fundamentals serving as ramifications and support subjects.

Key words: teaching of Chemical Engineering, basic design, fundamental subjects, subject sequencing

RESUMO

O estudo traz uma proposta pragmática de se lidar com o aumento assustador de informações no campo da engenharia sem sacrificar a qualidade da formação. Apresentam-se argumentos amadurecidos em muitos anos de experiência que questionam a preferência atual pelo ensino voltado aos fundamentos teóricos. O aluno submetido a este, durante 90% de seus estudos, desenvolve uma falsa  confiança em sua preparação. Mostra-se com fartos exemplos o grau de decepção tanto do aluno quanto do docente com a filosofia dos fundamentos. Nossa proposta inverte a seqüência da aprendizagem. O projeto básico seria o eixo central do currículo, e os fundamentos apareceriam como ramificações e suporte.

Palavras chave: ensino de Engenharia Química, projeto básico, disciplinas fundamentais, seqüência de disciplinas

1. Introdução

         Pretendo contribuir com minha modesta experiência de ensino no campo da Engenharia Química ao eixo temático da reforma de estruturas curriculares. Embora minhas visões e convicções da engenharia sejam um tanto quanto antiquadas, espero, assim mesmo, poder levantar algumas inquietudes e alimentar os debates que estão ocorrendo na comunidade acadêmica de engenharia.

         No intuito de animar nossa discussão desde o começo, faço agora duas perguntas.

         Primeira: Qual é a densidade do nitrogênio em um lugar onde a temperatura é de 65oC e a pressão é de 680 mm Hg? Imagino que alguns de vocês estão agora mentalmente percorrendo as obras de referência que deveriam consultar. Espero não surpreendê-los com o simples cálculo, feito de cabeça, que segue:

r (65oC,680 mmHg) = (28/22,4)*[(273)/(273+65)]*(680/760) = 0,903 g/l

         Segunda: Como calculamos a potência requerida duma bomba? Novamente, lanço o desafio de tirar a resposta da cabeça, apenas para decepcionar os estudiosos dos livros sobre transporte de fluidos. Convido vocês a acompanharem meu raciocínio esboçado a seguir:

potência = energia/tempo =(força*distância)/tempo = (pressão*área*distância)/tempo = pressão*(volume/tempo) = pressão * vazão.

Em termos de unidades, W = Pa * m3/s ou 

N*m/s = (N/m2)*(m3/s). Qualquer outro sistema de unidades requereria um fator de conversão.

         De início, advirto que minha filosofia profissional é oposta à corrente atual. Nos tempos modernos advoga-se uma ênfase em fundamentos, e deixa-se a aplicação prática para algumas poucas disciplinas do final do curso. Pretende-se com isso formar um engenheiro com uma bagagem teórica à altura das fronteiras do conhecimento, que esteja preparado para todas as eventualidades do mercado de trabalho, principalmente para a pós-graduação. Como ser rebelde que sou, acredito e pratico exatamente o contrário. Penso que fundamentos representam bagagem esquecível enquanto não se defina seu destino prático. Minha proposta é e sempre foi a de intercalar disciplinas teóricas e práticas desde o início do curso, para ressaltar a importância dos fundamentos como ferramentas de trabalho do engenheiro.

         Escolhi como tema o projeto básico porque para mim, é ele o pivô da engenharia, mesmo no novo milênio. Todo o resto dos ensinamentos gira em volta do projeto, de uma forma ou de outra. O projeto costuma levar a uma obra, e é por obras que o engenheiro é julgado e apreciado. Isso não quer dizer que desprestigio os fundamentos. Significa simplesmente que os subordino às necessidades do projeto no percurso de formação das pessoas. A base de minha filosofia são exemplos vividos do seguinte tipo. No vestibular, o aluno é obrigado a realizar um trabalho de redação que considera supérfluo para sua futura carreira de engenheiro. No terceiro período, o aluno aprende como resolver equações diferenciais. Memoriza as fórmulas durante certo tempo, e logo as esquece. No quinto período, o aluno aprende a escrever balanços de quantidade de movimento para situações abstratas. Memoriza as fórmulas durante certo tempo e logo as esquece. Quando chegar o momento de aplicar todos esses conhecimentos no projeto de fim de curso, o aluno já se encontra no décimo período e não lembra muito dos fundamentos aprendidos há anos atrás. A conclusão equivocada costuma ser que as disciplinas do ciclo básico são deficientes e não preparam o aluno adequadamente. Discordo. O problema está no seqüenciamento das disciplinas e na escolha da filosofia de formação.

         Em minha modesta opinião, são as disciplinas de projeto que formam a pessoa porque exigem raciocínio, espírito crítico, criatividade, curiosidade e prática de comunicação. Elas ensinam também, inconsciente e naturalmente, a importância dos fundamentos que, pela aplicação, transformam-se de bagagem esquecível em ferramenta de trabalho essencial. Vou apresentar aqui exemplos práticos retirados de minha experiência de trabalho com alunos nas disciplinas de projeto, para dar apoio a minha filosofia e a meus argumentos. Convido os leitores a serem críticos e a formarem suas próprias conclusões. Se conseguir suscitar questionamentos e reflexões, terei atingido meu objetivo. Os temas genéricos dos exemplos são escoamento de fluidos, troca térmica, instrumentação, balanços de massa e energia e comunicação escrita.

2. Escoamento de fluidos

         Um purgador é um dispositivo que elimina líquido acumulado por condensação, de canos e equipamentos contendo gases ou vapores. Para as finalidades de disciplinas de fundamentos, este conhecimento possivelmente é suficiente. Em disciplinas de projeto, é necessário escolher o lugar exato onde o purgador será instalado, especificar a estrutura de apoio, indicar o destino do líquido purgado e detalhar o purgador para o departamento de compras. Isso significa determinar a capacidade, o modo de operação e se possível o número de catálogo. Percebe-se que dos fundamentos ao projeto existe uma distância razoável.

         Em um primeiro caso, recebi a proposta de instalar o purgador no próprio cano onde circula o vapor. Isso é um contra-senso, pois o líquido não seria eliminado do cano e o purgador tornar-se-ia inócuo.

         Em um segundo caso, recebi a proposta de instalar o purgador em algum ponto elevado do trecho de encanamento. Isso também é um contra-senso, pois o líquido não acumularia no purgador, que não o sentiria e não o poderia eliminar. O bom senso manda que o purgador seja instalado em um ramal do encanamento feito especificamente para este fim, e acoplado no ponto mais baixo do trecho.

         Em um terceiro caso, foi solicitado dimensionar um purgador. Recebi a seguinte proposta: A quantidade de condensado calculado foi de 10,69 kg/h. O menor purgador encontrado no catálogo foi o modelo 720A de capacidade 70 kg/h. Portanto ele descarregará de 6 em 6 horas. O que o aluno imaginou que aconteceria? Que se acumulam 70 kg de condensado e logo o purgador fica aberto por uma hora para descarregar tudo. Logo fica fechado por seis horas para acumular de novo. Que é que o purgador faz? Ele não entende o desejo do aluno. Ele abre sempre que estiver inundado e descarrega tudo. A freqüência da descarga depende da geometria do cano e do tamanho do purgador. Se ele tiver capacidade de 70 kg/h quando aberto, então para descarregar 10,69 kg/h ele trabalharia a 10,69/70=15% de sua capacidade ou 15% do tempo. Isso significa que de cada hora que passa ele fica aberto 9,16 minutos e fechado 50,84 minutos. Esta situação é bastante diferente da proposta do aluno.

         Com este primeiro exemplo espero ter dado o tom de minha exposição.

         O escoamento de fluidos em canos obedece a certos parâmetros de contorno, principalmente pressão, temperatura e geometria. Desejos do engenheiro não fazem o fluido obedecer.

         Em um primeiro caso, recebi a seguinte proposta para escoar um líquido. Para acomodar a vazão de 0,90 m3/s, foi escolhido um cano com diâmetro interno de 8 in (204 mm). A velocidade de escoamento será de 27,5 m/s. Esta é uma velocidade normal para escoar um gás. Líquidos escoam economicamente com velocidades de 2 a 3 m/s. É um fato que o projeto precisa considerar.

         Em um segundo caso, recebi a seguinte proposta. Para o vapor saturado de 250 kPa assumimos uma temperatura de 400oC. Os erros de densidade e velocidade resultantes dessa suposição falsa serão proibitivos. Sempre é bom consultar as boas velhas tabelas de vapor e retirar a temperatura certa, que neste caso é de 127oC.

         Em um terceiro caso, recebi o cálculo da velocidade de escoamento do vapor de escape duma turbina, onde a contra-pressão estava desconhecida. A vazão dada é de 2,83 kg/s com r=0,7315 m3/kg. Vamos escolher um cano nominal de 10 in com d.i.=10,02 in=254,51 mm e obtemos a velocidade pela fórmula: v=4Q/(pd2)=40,7 m/s.

         O vapor realmente circularia com esta velocidade se a queda de pressão disponível fosse adequada. Sempre é bom considerar que o fluido tem suas próprias leis de escoamento. Para decidir a que velocidade escoar, ele usa a equação:

v=[(2gDPd)/(fL)]0,5.

         Encontramo-nos confrontados com a necessidade de satisfazer ambas as equações, a do aluno e a do fluido. A reflexão sobre o fenômeno mostra que a velocidade é na realidade um efeito, e não uma causa, das condições de contorno. Este fato é conhecido pelo projetista, mas pode não ser percebido pelo estudioso de fundamentos.

         Os alunos costumam sair das disciplinas de fundamentos com receitas feitas para resolver problemas hipotéticos. Casos clássicos são a famosa regra-de-três e a equação de Bernoulli. Quando encontradas em relatórios profissionais, essas receitas parecem fora de lugar. O problema não se encontra nas fórmulas. O problema normalmente é saber aplicá-las na situação adequada. Pessoalmente tenho a experiência de que tanto a equação de Bernoulli quanto a regra-de-três são perfeitamente dispensáveis em trabalhos de projeto. E mais: tenho visto que os alunos se atrapalham em 90% dos casos onde tentam aplicar a equação. Lembro-me de um caso recente onde um aluno procurou convencer-me, com a ajuda da equação de Bernoulli, de que a pressão atmosférica é de 0,61 atm.

         Em outro caso recebi o seguinte roteiro de cálculo usando a equação de Bernoulli. Para fins de análise duma turbina a vapor que move o eixo duma máquina, é necessário conhecer a pressão que deve existir na entrada da turbina onde o vapor chega pelo tubulão. A pressão na saída da caldeira é conhecida por medição como sendo 2,058 MPa. A perda de carga no tubulão é calculada em função da geometria e da vazão como sendo 85,47 m c.v. (coluna de vapor). Eis o argumento:

Bernoulli: PA/a + vA2/2g + zA = PB/a + vB2/2g + zB + hfAB

Admitindo regime permanente e fluido incompressível, tem-se: vA=vB,   zA=20 m,

zB=9m (da vista isométrica), PA=2,058 MPa = 2058823,529 Pa,

a=g/v=(9,8 m/s2)/(0,12195 m3/kg)=80,36080361 kg/(m2s2)

PB=2058823,529+80,36080361(20-9-85,47)=2052839,203 Pa.

         A receita feita chamada Bernoulli complicou o problema e produziu precisão fantástica. No âmbito do projeto, fiz a seguinte exigência: resolver o problema elegantemente sem Bernoulli e justificar a precisão do resultado. Eis a nova solução.

DPAB = 85,47 - 11 = 74,469 m c.v. ou

74,469 m c.v. * [(1/0,12195 m c.a.)/(1000 m c.v.)] * (9,8*10-3 MPa/1 m c.a.) = 0,00598 MPa   e  PB = 2,058 - 0,00598 = 2,052 MPa

         Surpreendentemente, a receita de Bernoulli tão recomendada era dispensável. O cálculo de projeto usou uma simples equação de unidades que não exigiu nada da memória.

         Para transferir água de processo dum reservatório elevado até um extrator, dispõe-se duma diferença de nível de 16,5 m. Inicialmente estima-se a velocidade de escoamento em 2,0 m/s. Isso permite a escolha do diâmetro de cano de 2,0 in para a vazão de projeto. Por sua vez, isso permite calcular a perda de carga cujo valor encontrado é de 6,2 m c.a. O raciocínio apresentado no relatório de projeto é o seguinte. A perda de carga é menor do que a diferença de pressão disponível. O cano é adequado e a vazão de projeto é garantida. O autor surpreendeu-se com minha pergunta: Como você garante a vazão de projeto apesar do excesso de pressão de 10,3 m c.a.?

         A principal diferença entre projeto e fundamento é que o projeto exige resultados funcionais para situações práticas, enquanto o ensino de fundamentos contenta-se com situações hipotéticas. O pulo de um ao outro apresenta perigos e desafios.

3. Troca térmica

         Os gases ácidos contidos em fumos de combustão exigem altas temperaturas de exaustão para evitar a corrosão de dutos e equipamentos causada pela condensação dos ácidos. Uma determinada pesquisa descobriu que pela injeção de certas substâncias no fluxo de fumos, é obtida uma redução da temperatura de orvalho dos gases ácidos. Em uma situação de processamento onde os fumos trocam calor com o ar de combustão, o pesquisador concluiu que por causa  do maior esfriamento possível, a troca térmica do preaquecedor de ar aumenta. O projetista discorda. Porque? Existe violação da trilogia térmica que é a regra básica do projeto. O incremento da oferta de calor na fonte não pode ser repassado ao consumidor se o sistema de transporte não é modificado para dar conta da carga maior. É necessário expandir a superfície de troca para poder aproveitar a maior oferta.

         O cálculo a seguir ilustra e verifica. Atualmente, os fumos esfriam de 347 até 170oC e o ar aquece de 25 até 160oC. A superfície de troca é de 1,073 unidades para um trocador tipo contracorrente. Conseguiu-se baixar o ponto de orvalho até 154oC e deseja-se aumentar a taxa de troca proporcionalmente, isto é 9%.

Situação atual:    
   q = WC(347-170) = UADT = wc (160-25)  

                                      onde DT média log.= 165oC

                            A = WC(347-170) / UDT = 1,073 WC/U

Situação desejada:

qn = WC(347-154) = 1,09 q = UADTn = wc(T-25)

T = 172oC   DT = 151oC

An = WC(347-154) / UDTn = 1,278 WC/U = 1,19 A

         Os cálculos de projeto evidenciam a necessidade de uma superfície de troca adicional de 19% para realizar o desejo do pesquisador, resultado para ele inesperado.

4. Balanços de massa

         Os balanços costumam comparar a matéria que entra numa unidade de processamento com aquela que sai. Usam-se o que chamamos volumes de controle para delimitar a unidade. Quando considerado como caixa preta, esse volume não revela toda a verdade. Quando misturamos correntes de processo com correntes de utilidades no mesmo balanço, dificultamos a tarefa. A finalidade do balanço na prática industrial não é escrever a equação, mas sim identificar perdas e conferir  instrumentos. No balanço misturado não conseguimos identificar se a falha está nas utilidades ou no processo, e tempo e esforço são perdidos na procura. Ilustro com um exemplo numérico.

         Um trocador de calor transfere calor de vapor condensante no casco a um líquido circulante nos tubos. As vazões que os instrumentos de medição indicam são (quaisquer unidades coerentes):

vapor entra 635,04 condensado sai 632,04    líquido entra 1786,54   líquido sai 1786,54. A pergunta é: qual é o erro de fechamento do balanço?

Resposta 1.     (635,04 - 632,04) / (1786,54 + 635,04) = 0,12%

Resposta 2. (635,04 - 632,04) / (635,04) = 0,47%.

Resposta 3.      (1786,54-1786,54)/(1786,54+635,04) = 0%.   

Resposta 4.      (1786,54-1786,54)/(1786,54) = 0%.

Resposta 5.     (635,04-632,04)/(1786,54) = 0,17%.

         A diferença de um fator 4 entre as respostas 1 e 2 é devida à diferença de escritura do balanço. Qual é a resposta certa?

         Volto à regra de três. Recebi o seguinte raciocínio no cálculo da quantidade de ar requerida para transformar em monóxido de carbono um gás contendo 82,52% de metano e o resto inertes, com 5% de excesso de ar.

1 kmol metano  -  1,5 kmol oxigênio

0,8252 kmol metano  -  x kmol oxigênio

x=1,2378 kmol oxigênio

com 5% de excesso 1,3000 kmol oxigênio

ar necessário 1,3000 kmol oxigênio*(100 kmol ar/21 kmol oxigênio)=6,19 kmol ar.

         Para fins de comparação apresento uma solução elegante sem regra-de-três que usa apenas uma equação de unidades.

1 metano + 1,5 oxigênio = 1 monóxido de carbono + 2 água

(0,8252 m3 metano/m3 gás)*(1,5*1,05 m3 oxigênio/m3 metano)*(100 m3 ar/21 m3 oxigênio) = 6,19 m3 ar/ m3 gás.

5. Comunicação escrita

         O relatório técnico é a peça chave de qualquer projeto. Sem ele, o engenheiro nunca conseguiria convencer a ninguém que realmente trabalhou no projeto. Em disciplinas de fundamentos, os alunos costumam ser avaliados por provas escritas limitadas no espaço e no tempo. O máximo de redação exigido é rabiscar algumas fórmulas e sublinhar os resultados dos cálculos. Quando chegarem às disciplinas de projeto onde são obrigados a escrever o relatório, já não lembram nada daquela redação feita no vestibular, mas de repente percebem que ela tinha uma razão de ser. Trago alguns trechos extraídos de redações que costumo pedir no início do trabalho de projeto, para ilustrar a fragilidade da comunicação.

Descreva um termopar. É formado pela junção de metais diferentes. Quando esses metais é submetido a uma variação de temperatura gera uma força eletromotriz.

Defina o rendimento duma unidade fabril.  O rendimento é a fração do obtido na unidade fabril, sobre o gasto para produzir o obtido. Isto em termos de matéria prima.

Dê o objetivo do controle automático. Diminuir o trabalho do homem, e otimizando o processo, pois assim não é necessário estar todo o momento atento.

Dê o objetivo do controle automático. O controle automático tem como objetivo manter uma constante guarda das variáveis que se quer controlar, isentando assim a ineficiência do ser humano.

Diga como é medido o rendimento.  Fazendo um balanço do que entrou, o quanto foi gasto, o que saiu, quanto vale, daí tera-se o que aproveitou (rendimento).

Defina um elemento de medição.  É uma unidade na qual deverá mostrar ou indicar a variação da propriedade de que se quer conhecer.

6. Instrumentação

         Causa e efeito. Tenho uma caixa d'água com aquecedor para obter água quente. Quero água entre 40 e 60oC. Pela geometria da instalação, calculo a faixa de potências do aquecedor que satisfaz essa demanda, e obtenho 17,4 a 62,2 kW. Faço a calibração de oC para kW. O que estou calibrando, o vaso d'água ou o aquecedor ou o controlador?  Estou calibrando o controlador que recebe um sinal de oC e encontra o sinal calibrado de kW por sua equação de algoritmo. Este processo é iterativo.

         Medições de vazão. O estudo de fundamentos e da literatura sobre instrumentação não costuma ajudar o aluno que precisa adquirir instrumentos para a unidade projetada. Uma noção prática e bastante bom senso são requeridos para acertar as escolhas. Por exemplo, colocar uma placa de orifício na chaminé e um tubo de Pitot no tubulão de vapor de alta pressão, não são escolhas práticas, embora teoricamente possíveis.

         Controles de pressão. No topo duma torre de fracionamento existe equilíbrio entre líquido e vapor da mistura processada. Para essa condição, as três variáveis pressão, temperatura e concentração interdependem. Apenas duas das três podem ser fixadas ou controladas. Os fundamentos da termodinâmica e da transferência de massa são tolerantes com respeito à escolha, o projeto de instrumentação, não. Se eu decidir controlar a temperatura manipulando o refluxo, e a concentração manipulando a carga térmica, a tocha teria total liberdade de aspirar os vapores, e não seria possível fazer entender à pressão que deve manter este ou aquele valor. Para entender a situação, preciso no mínimo ter experimentado com sistemas de instrumentação e testado algumas opções.

         O relatório do projeto de instrumentação. O estudo fundamental dos balanços de massa e energia usa os valores das variáveis de contorno para satisfazer as igualdades entre entradas e saídas. Nada é dito sobre a representatividade, a precisão e os meios de medição dessas variáveis. É no momento de elaborar o projeto duma unidade de processamento que o aluno enfrenta, pela primeira vez, este tipo de indagações. A seguir vou esboçar o trajeto de preparo fundamental do aluno e seu desempenho verificado na primeira ocasião prática.

         Em disciplinas de balanços, isoladamente, o aprendiz forma a noção de que a vazão mássica que entra numa unidade fabril tem que ser igual àquela que sai mais àquela que acumula no interior. Em disciplinas de instrumentação, isoladamente, transmite-se a informação de que a vazão pode ser medida por meio de rotâmetros, placas de orifício, balanças, hidrómetros, tubos de Pitot e alguns outros. Em disciplinas de simulação, isoladamente, fornecem-se algoritmos que resolvem equações algébricas simultâneas ou que calculam a composição da efluente dum reator. Disciplinas de teoria de controle, isoladamente, levam o aprendiz a determinar a estabilidade dum laço fechado por meio de representações gráficas em coordenadas do espaço transformado.

         Já se percebeu aonde quero chegar. O aprendiz foi aprovado isoladamente em cada uma dessas disciplinas. Se nunca fosse chamado a realizar um trabalho de projeto, iria embora com a certeza duma excelente formação e preparação técnica. Assim, de repente, aparece uma tarefa simples na prática industrial: instrumentar uma olaria e apresentar o relatório correspondente. Confiante em seus conhecimentos, nosso amigo procede da seguinte maneira.

Fechar balanços. A vazão de argila que o trator joga na caixa de mistura mede-se com um tubo de Pitot. A vazão de tijolos na saída do forno abóbada mede-se com uma balança. A vazão de água que entra na caixa de mistura e aquela que sai da seção de secagem medem-se com rotâmetros. Para conhecer a vazão de fumos, colocamos uma placa de orifício na chaminé. Ao final de cada dia calculam-se as médias das medições e fecha-se o balanço.

Regulagem. Coloca-se um controlador de nível de água na seção de secagem para controlar a água retida pela argila. O laço será estável se a curva no espaço transformado estiver convexa. Caso isso não aconteça, adiciona-se ação integral.

Relatório. Todos os métodos de medição e controle descritos são auto-explicativos. A fábrica estará sob controle automático e terá todas as vantagens correlatas.

7. Balanços de energia

         Balanço energético de uma caldeira. Se aqui comparamos a energia fornecida pelo combustível com aquela levada embora pelo vapor e os fumos, nunca conseguimos fechar o balanço. O vocabulário usado nos raciocínios também merece algum cuidado. Recebi o seguinte texto. O balanço energético se fecha comparando a energia produzida pelo óleo combustível com aquela produzida pela purga, pelo vapor e pelos fumos. Ao refletir sobre essa redação, percebemos que o autor não soube comunicar seu conhecimento ao leitor.

         Balanço energético duma unidade de processamento. Nas disciplinas de fundamentos aprende-se que num balanço, as entradas são iguais às saídas. Baseado nesse enunciado, quando o aluno começa a preparar o projeto  duma unidade onde é requerido  o balanço, apresenta o seguinte raciocínio. A energia por unidade de tempo que entra e sai é calculada pelo produto de vazão e entalpia. Como o balanço fecha, se me falta a entalpia duma corrente, posso calculá-la pela equação de balanço. Será esta a finalidade do balanço de energia?

         Perdas de calor. Um tema bonito e adequado para encerrar esta discussão é a determinação das perdas de calor em operações de troca térmica. Analisemos um trocador de calor onde a fonte é vapor condensante e o receptor é vinhoto sendo aquecido. As vazões são 9,167 t/h de vapor e 445 t/h de vinhoto. Dispomos das entalpias que são dadas em MJ/t como segue:

vapor  2717 condensado 532,3 vinhoto frio 438,0 vinhoto quente 482,9.

         Existem dois métodos  de se avaliar as perdas: comparar o calor trazido com o calor levado, ou comparar o calor suprido com o calor usado. O calor trazido é a soma das entradas de vapor e vinhoto:

9,167 * 2717 + 445 * 438,0 = 219817  MJ/h.

         O calor levado é a soma das saídas de condensado e vinhoto:

9,167 * 532,3 + 445 * 482,9 = 219770 MJ/h.

         A diferença entre as duas somas é de 47 MJ/h que quando comparada com o calor trazido corresponde a uma perda de 47 / 219817 = 0,02%. Agora, o calor suprido é o calor que o vapor deixa no equipamento ao passar por ele:

9,167 ( 2717 - 532,3 ) = 20027 MJ/h.

e o calor usado é aquele que o vinhoto leva embora do equipamento:

445 ( 482,9 - 438,0 ) = 19980 MJ/h.

         Novamente, a diferença entre os dois valores é de 47 MJ/h que comparada com o calor suprido corresponde a uma perda de 47 / 20027 = 0,23%. Surpresa? Esta perda é dez vezes superior à anterior. Qual desses dois valores realmente representa a perda?

         Acredito que não existe maneira melhor de encerrar meu tema, que tratou dos perigos e desafios do projeto básico. Ao levarem para casa a dúvida sobre esse último exemplo, assim o espero, levam também reflexões sobre o argumento que expus e defendi aqui. O projeto básico de unidades de processamento requer quanto conhecimento de fundamentos e quanto bom senso? Quais são seus perigos, e quais são seus desafios?

8. Discussão e Conclusão

         Os argumentos e exemplos apresentados levam naturalmente à proposta de reforma seja do currículo, seja da filosofia de ensino. Se o aluno for exposto desde seu ingresso a problemas de projeto, ele aprenderia a desenvolver um espírito crítico e prático ao longo do ciclo de estudos. O aproveitamento dos fundamentos seria otimizado. Eles passariam a ser reconhecidos como ferramentas essenciais do projeto, ao invés de ser desprezados como bagagem teórica esquecível. Propõe-se que pelo menos uma disciplina de cada semestre exija trabalhos de projeto. No caso ideal, essa seria uma disciplina continuada que a cada semestre mostraria ao aluno o progresso havido de seus conhecimentos que o habilitou a resolver mais uma fase do projeto. Este é um guia mais fácil e mais lógico para o aluno do que as exigências de pré-requisitos, de notas mínimas e de restrições de matrícula. Independentemente do número de disciplinas já cursadas, aquela do projeto informará ao aluno com precisão em que semestre realmente se encontra.