Seção Educação e Reflexão -
Duas Reflexões

 

Gabriel Perissé
(Criador da "Escola de Escritores")
perisse@uol.com.br

 

1- Em Defesa da Descrença

            Há momentos em que me sinto um ateu incurável, um desconfiado sem redenção, um niilista de carteirinha, um cético de passeata, um agnóstico subversivo.

            Constatando minha descrença básica em tantos dogmas que exigem fé incondicional, pergunto-me se um dia ainda serei aceito entre os vencedores da vida, pessoas que encaram o mundo com os olhos arregalados, em êxtase.

            Assediado todos os dias pelos apóstolos de uma visão de mundo em que não consigo crer, pressionado pelos pregadores infalíveis de uma salvação a que não me sinto chamado, resta-me o protesto veemente, a exposição de minha profissão de não-fé:

Não acredito no horóscopo do dia. A propósito, nós, aquarianos, não acreditamos em previsões que distribuem os destinos humanos em doze possibilidades, por mais poética ou difusa que seja a sua formulação.

Não acredito em duendes, em anjos cabalísticos, no poder das pirâmides, nem mesmo no famoso pensamento positivo, uma vez que todo o pensamento que se preze é maior que zero, as pirâmides são apenas belos túmulos e os duendes e anjos têm mais o que fazer do que virar mercadoria esotérica.

Não acredito que na crise se cresce. Esse trocadilho infeliz despreza a quantidade de pessoas que no desemprego, na fome e na doença decrescem e desaparecem. A crise é boa para quem explora a crise alheia.

Não acredito em metade do que diz a imprensa. Há pessoas que acreditam em tudo o que lêem nos jornais, mas não acreditam em nada do que diz a poesia. Os poetas mentem com elegância e pureza.

Não acredito nas pegadinhas dominicais que a TV mostra. Tudo aquilo é encenação, mas meu lado inocente assiste e sempre ri com todas elas.

Não acredito no fim do mundo, por mais que interpretem os poemas de Nostradamus como se fossem profecias e não poemas.

Não acredito na Lei de Murphy. Minha descrença nada tem a ver com o pessimismo sistemático. Ninguém deveria caluniar a vida.

Não acredito nas listas dos livros mais vendidos, seja na área de ficção ou de não-ficção, embora possa acreditar no dia em que o meu livro constar dessas listas.

Não acredito em estatísticas, desde o dia em que soube que 45% dos brasileiros também não acreditam.

Não acredito na incredulidade barata, que põe em xeque uma série de superstições e depois acende uma vela para si mesma.

Não acredito! Juro que não acredito.

 

2- Pontos de Vista e de Cegueira

            Tudo depende do ponto de vista.

            Esse adorável lugar-comum tornou-se lema que dissolve todos os dilemas, soluciona todos os problemas, relativiza todos os axiomas, nivela todos os acidentes geográficos, arredonda todas as pontas, desmancha todas as fronteiras, embranquece todas as cores e aprova todas as minhas e as nossas cegueiras.

            E como é gostoso não aprender, não distinguir e, sobretudo, não mudar de idéia!

            Se tudo depende do ponto de vista, então todas as verdades são verdadeiras, todas as propostas são interessantes, todas as teses são defensáveis, todas as conclusões são provisórias, todas as decisões não são decisivas. Tudo é válido, amém!

            Essa conduta verbal e mental não abarca a complexidade da vida mas, como é de fácil consumo e difusão, tornou-se a ideologia de muitos pseudopensadores que, em seus pseudolivros, transmitem pseudocon-ceitos e pseudoconselhos. São gurus que falam complicado para esconder a simplicidade do seu nada.

            No entanto, se existem pontos de vista, existem também pontos de cegueira.

            Vejo vários aspectos da realidade mas é verdade que não consigo ver uma infinidade de outros aspectos da mesmíssima realidade. Minha visão de mundo é incompleta, pois limitados somos cada um de nós. Preciso ampliar meu campo de visão. Com a ajuda de outras visões.

            Lucidez visual é compreender que nem tudo podemos compreender, e que muitas vezes o que julgamos compreender compreendemos mal. A lucidez visual requer a inteligência auditiva de ouvir os outros, e ver pelos olhos dos que vêem melhor. Nelson Rodrigues dizia: “O pior cego é o que não quer ouvir.” Não quer ouvir uma opinião diferente e, talvez, mais verdadeira.

            Todos os pontos de vista não se equivalem. Cabe-nos a tarefa de fazer um exame de vista pessoal para descobrir nossa particular capacidade de ver.

            Dois exemplos: a miopia e a hipermetropia.

            Os míopes têm pontos de vista curtos. Só conseguem ver o imediato, o que está na cara. Só conseguem enxergar a conta telefônica que vence hoje, o próximo capítulo da telenovela, o escândalo político da semana, a inflação do mês.

            Os que sofrem de hipermetropia só conseguem ver com nitidez os objetos distantes, o futuro do país, os ideais inalcançáveis, a felicidade final. Tropeçam na cadeira mais próxima. São visionários, poetas, filósofos.

            Ambos estão errados. E ambos estão certos. Errados em coisas diferentes. Certos em diferentes coisas.

            Um precisa do outro para ver tudo. É difícil acumular os dois defeitos.