Perspectivas da Engenharia
 Química no Brasil

 

José L. Magnani
(EPUSP)

 

Dados da ABIQUIM (Associação Brasileira das Indústrias Químicas) mostram que no período de 1990/1998 as importações, de produtos químicos industriais, aumentaram em 17,2% enquanto que as exportações aumentaram em 9,7%. Um outro dado significativo é a redução do valor agregado a indústria química brasileira de US$ 45 bilhões para US$ 40 bilhões de 1997 para 1998. No contexto da chamada "globalização" (e globalização eu acho que é a palavra na hora em que tivermos que caracterizar o desafio) a indústria química brasileira preferiu do ponto de vista econômico e estratégico a descontinuação da produção de uma série de especialidades – produtos obtidos e comercializados em pequenas ou médias quantidades, de alto valor agregado, ao contrário das commodities, produzidas e comercializadas em grandes quantidades (milhares de toneladas) e de baixo valor agregado.

 

Isso porque a produção e a inserção no mercado de especialidades químicas têm custo elevado. E o custo elevado se chama inteligência. Inteligência de equipes de técnicos, de pesquisadores, de vendedores técnicos, de atendimento ao cliente. A descontinuação dessa produção de especialidades pode ser feita - e em grande parte o foi - transformando a capacidade industrial instalada em especialidades químicas para commodities. A especialidade química requer um alto custo de inteligência para chegar até o mercado. Na hora em que descontinuo a minha produção de uma especialidade química e uso a minha capacidade instalada para a produção de commodities eu posso eliminar todo o custo da equipe de especialistas, de técnicos, de profissionais altamente qualificados. Reduzo esse custo e reduzo o meu valor agregado. Esse aumento na produção de commodities pode assim ser exportada.

 

Exporto, portanto, commodities e importo especialidades. As commodities têm valor muito inferior ao das especialidades que importo e aí há uma violenta redução no número de empregos especialmente nas camadas de maior especialização - os profissionais da química. Esse é o modelo, isso que estamos vivendo é a nossa inserção atual na globalização, ou seja, a nossa empresa química instalada no Brasil é a grande química global. É essa a inserção que desejamos ou temos outra possibilidade de inserção? Qual é essa outra possibilidade?

 

Essa possibilidade, em parte e timidamente exploramos. Por exemplo: o Brasil produz o álcool mais barato do mundo com tecnologia estritamente brasileira. O Brasil é um exportador de papel, que também é uma indústria química; um exportador bem sucedido e o pioneiro no mundo em tecnologia de papel de fibra curta. Por que? Porque o Brasil produz bem o eucalipto que dá uma polpa de fibra curta. Esses dois exemplos mostram uma possibilidade enorme que temos de atuar dentro das peculiaridades brasileiras, ou seja, as condições climáticas, condições culturais, condições quaisquer que sejam que no Brasil são diferentes do resto do mundo dito global; podem permitir um esforço exportador com competitividade de preço altamente marcada e eventualmente até de qualidade. Devemos buscar e explorar as nossas vocações.

Por outro lado temos importações na ordem de dezenas de bilhões de dólares para o Brasil. A essas importações ainda cabe a pergunta que sempre foi feita: o nosso processo de substituição de importações está completo? Ainda existe espaço para ele ou não? Parte desta importação não pode ser substituída por motivos técnicos. Um exemplo: o Brasil não é auto-suficiente em fosfato e o importa. Mas a maior parte da importação se refere a produtos de alto conteúdo tecnológico de alto valor agregado e, portanto, cabe a substituição. Ou seja, o processo de substituição de importação não está esgotado de forma alguma.

 

Outro ponto de igual importância: o próprio desenvolvimento de produtos que tenham a "cara de Brasil" e o que tem essa cara? Se eu monto uma petroquímica, eu monto uma indústria de polímeros e fabrico copinhos descartáveis de café; quando fiz isso importei: matéria prima = petróleo, tecnologia da petroquímica, tecnologia do plástico, tecnologia de propaganda e marketing do copinho, necessidade de uso dos copinhos (pois até então tomava-se café na xícara que era lavada com detergente ou sabão).

 

Temos a possibilidade de criar, desenvolver, assumir e explorar os nichos culturais que temos. Por exemplo: um BigAcarajé no lugar do BigMac! Por que não? Existe química nisso? É claro! Se eu tiver um acarajé congelado eu terei que usar algum antioxidante para preservar a qualidade dos óleos e gorduras presentes! Por que não assumir nossa identidade e, em lugar de descontinuar aquilo que está nosso cotidiano, que está na nossa cultura e que estabelece o nosso nicho, substituir por um sabor pasteurizado internacional cuja principal virtude é satisfazer nossa crescente xenofilia?

 

De repente "nada do que é nacional presta", coisa de Terceiro Mundo. Mesmo que se queira fazer coisa de Primeiro Mundo eu vou ser Terceiro Mundo sempre, porque sou um imitador. Todo país que hoje ostenta bandeirinha de Primeiro Mundo mantém sua cara, suas características e se impôs. Se impôs de alguma forma! A Itália, que se impõe na Europa, jamais adotou o padrão do vinho francês como paradigma. O vinho italiano tem personalidade italiana e é exportado, da mesma forma como o vinho francês o é.

 

Hoje, para o consumo interno, temos a possibilidade de desenvolver uma química que seja nossa. Por que isso não é feito? Como o conhecimento foi administrado na implantação da grande química que está aí, essa que como vimos e descontinua especialidades e aumenta a produção de commodities? Que exporta e importa, com o aumento de importação maior que o incremento exportador! Toda essa grande indústria foi feita dentro de modelos totalmente importados, com tecnologia importada. Toda a implantação da petroquímica brasileira e da química inorgânica também foi feita dentro desse modelo.

 

Dentro desse modelo a grande química dispunha de quadros técnicos numerosos, qualificados e competentes, de pessoal de alto gabarito seja em economia, em finanças e, consequentemente, em estudo de viabilidade econômica, seja em competência técnica em química, capaz de determinar a viabilidade técnica das unidades produtivas de nossa química. Então as equipes eram perfeitamente divididas e a confluência entre quem determinava a viabilidade técnica e quem determinava a viabilidade econômica só convergia na alta direção da empresa. Essas empresas por um lado desmobilizaram a sua competência técnica, por outro lado desmobilizaram a sua competência econômica, nos esforços de redução de custos, ao abandonar parte das especialidades e usar a capacidade instalada para as commodities. Na ausência de um Estado regulamentador de implantações, que limitava a importação através de Cacex e a concorrência interna através de CDI - Conselho de Desenvolvimento Industrial, essas empresas não mais têm o seu nicho de mercado perfeitamente protegido pelo Estado. E não mais tem as suas equipes capazes de demonstrar a viabilidade técnica por um braço operativo e econômica por outro braço operativo.

 

Todo esse modelo de implantação de indústria levava a um alto custo na folha de pagamentos. Mas esse alto custo de mão-de-obra não é o alto custo da mão-de-obra de fábrica, porque embora o Brasil tenha unidades em escala menor que as internacionais, os salários aqui praticados também são menores que os internacionais. Então quando comparamos o custo de mão-de-obra produtiva brasileiro, americano ou europeu, o custo brasileiro de mão-de-obra direta, de mão-de-obra de fábrica é absolutamente similar ao americano e é muito inferior ao custo alemão. A Alemanha é importante porque ela é um país exportador dessas especialidades químicas tão caras que importamos cada vez mais.

 

O alto custo da mão-de-obra brasileira se caracteriza como o alto custo do "overhead"; é o escritório que fica na Av. Paulista, na Faria Lima. É o que causa o descompasso do custo da mão-de-obra na grande indústria química brasileira. Esse modelo tal como está amarrado leva a uma possibilidade de superação através de um outro modelo de química. Um modelo de química a ser implantado por pequena empresa de empreendedor cujo custo de "overhead" é muito pequeno e que é capaz de ter um custo de mão-de-obra de fábrica igual ao de qualquer outra grande ou internacional. E que seja capaz, portanto, de agregar toda a necessidade de conhecimento técnico e econômico; que seja capaz de distinguir, de ver nichos de mercado e que tenha o discernimento - nem sempre fácil - de saber se uma idéia (se um nicho) é uma oportunidade saudável técnica e economicamente ou se é um "sonho" que só dá prejuízo. E é muito difícil distinguir entre essas duas coisas.

 

De novo, citando um exemplo, a indústria quimica que investe muito em pesquisa e desenvolvimento - desenvolveu uma metodologia de "descartar projetos inviáveis". A cada 200 projetos de pesquisas iniciados, em média apenas um chega ao mercado. Apenas um resulta em alguma coisa que chega ao mercado! E a metodologia consagrada procura avaliar a oportunidade a cada ciclo de estudo. É a história de cebola: vou arrancando casca por casca; e a cada casca maior de conhecimento que arranquei, que transformei o desconhecido em conhecimento, eu reavalio economicamente a oportunidade. O cerne da metodologia consiste em descartar o projeto inviável o mais cedo possível; antes que acabe custando mais que o necessário. Daí que com o mesmo orçamento, no lugar de 200 novos produtos eu vou pesquisar 400. E se eu pesquisar 400 no lugar de 200 colocarei 2 no mercado no lugar de um só. Em média!

 

Tenho que ter um profissional de química que seja capaz - portanto - de agregar qualificações, competências em: química, engenharia, avaliação econômica e de oportunidades. E mais do que isso, tenho que ter um profissional de química que saiba circular e saiba, por exemplo, ir na Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) buscar dinheiro. Num país como o Brasil, que com todo o potencial existente e todo esse perfil de indústria química, a Finep por vezes não tem tomadores de dinheiro para estudos e projetos. Porque não existe iniciativa que vá lá e tome o dinheiro - dinheiro esse disponível, em condições especiais, justamente para estimular a implantação do novo! Mesmo assim faltam tomadores para esse dinheiro para fazer estudos visando conferir uma oportunidade. De certa forma o mesmo por vezes ocorre com o BNDES, que pode proporcionar vasto crédito desde que se demonstre a saúde econômica do empreendimento.

 

Os profissionais de química brasileiros são reconhecidamente competentes em técnica. E desconhecem as demais competências. Os profissionais de química brasileiros têm uma excelente formação para ser empregado do modelo de implantação da química que foi bem sucedida nas décadas de 70 e 80, dentro do modelo CDI, Cacex e CIP. Na hora da exaustão desse modelo, com as equipes da viabilidade técnica separada da equipe da viabilidade econômica, os nossos cursos são recalcitrantes em se modernizar, em colocar no currículo alguma coisa substantiva em avaliação econômica.

 

Não conheço nenhum curso (e se eu estiver enganado, por favor me informe, pois neste caso eu adoraria ser desmentido) de química ou de engenharia química que tenha a disciplina de Marketing em seu currículo. Pelo contrário, falou em marketing o químico se arrepia e fala: "meu Deus! eu vou ter que ser vendedor!", desprezando um campo de trabalho do químico dos mais sofisticados que é a engenharia de vendas, a tecnologia de vendas, a tecnologia de aplicação de produtos. A capacidade de identificar necessidade e suprir essa necessidade que está sendo identificada.

 

Estou falando do conhecimento e de uma necessidade para que essa química, para que esse desafio da próxima década possa ser conferido, realizado e implantado. É a articulação do conhecimento; ele não pode mais ser articulado por equipes numerosas que convergem o conhecimento numa alta direção da empresa. O profissional da química pode aprender aritmética econômica e pode aprender conceito de marketing; dificilmente o economista vai aprender química com a profundidade que os nossos recém-formados têm. É mais fácil fazer o caminho inverso; agregar esse conhecimento nos nossos profissionais da química.

 

Essa confluência na pessoa e não na alta direção de uma estrutura caríssima pode abrir um instrumental para que esses nichos, essas oportunidades sejam abertas.

 

Vamos falar do conhecimento, o conhecimento necessário à implantação de nova tecnologia. De certa forma 90% deste conhecimento é em química e engenharia clássica, tradicional, que se encontra em qualquer biblioteca; 5% pode ser complementado no laboratório; e 5% geralmente se erra até dar certo. Contudo, a geração de conhecimento pode ser feita em duas vertentes básicas.

O conhecimento pode ser gerado como conhecimento aplicado, como conhecimento que falta para a gente fechar um pacote tecnológico, por exemplo, o conhecimento necessário para fabricar papel de fibra curta de alta qualidade. O Brasil sabia fazer papel de fibra longa, plantar eucalipto e mil coisas. A tecnologia para fazer papel resistente, de fibra curta era um acréscimo. Então, esse conhecimento adicional, incremental para viabilizar como idéia uma oportunidade, leva à "pesquisa aplicada". É desenvolvimento de conhecimento, geração de conhecimento aplicado.

 

A outra vertente, o conhecimento de erudição, é absolutamente necessária para que um país aprenda e se exercite na geração de conhecimento. Porém, o Brasil tem alto nível nisso mas não pode se restringir - de novo e ainda especialmente na próxima década - a geração do conhecimento de erudição. Conhecimento não aplicado é necessário sempre, mas não pode ser restrito a ele. Vejam o percurso que o conhecimento de erudição desenvolvido e gerado faz: o pesquisador no Brasil, através de verbas brasileiras, desenvolve uma pesquisa e publica num periódico internacional. Esse conhecimento passa a fazer parte do acervo global de conhecimento, o qual é apropriado e viabilizado em torno da produção, de agregação de valor, de dinheiro, economia, conforto, de bens de consumo e de progresso na humanidade, nas matrizes das mega-empresas, das multinacionais e empresas globais, cuja matriz não existe no Brasil. Posteriormente esse mesmo conhecimento migra da matriz que é no Hemisfério Norte (Europa, EUA e eventualmente o Japão) para o Brasil, para a sua filial. Daí que, na melhor das hipóteses, o conhecimento gerado no Brasil, de pesquisa de erudição, irá gerar riqueza no Brasil através da filial, passando primeiro pelo editorial do Primeiro Mundo, segundo pela matriz da empresa lá e em terceiro na filial aqui. As empresas, a grande química globalizada e instalada no Brasil raramente conversa com as universidades e centros de pesquisas brasileiros. Fazem isso somente através do Hemisfério Norte.

 

Há uma necessidade de superação para subir do patamar da pesquisa de erudição para a pesquisa aplicada. É necessário romper todos os obstáculos recíprocos que existem entre empresa e centro gerador de conhecimento. Isso pode ser feito por ex-alunos das mesmas instituições que geram conhecimento, porque conhecem o cacoete, porque sabem o nome, porque sabem a quem procurar. Mas de novo, esse ex-aluno necessariamente tem que ter o perfil do empreendedor. Quantos? Não sei! Quantos dos nossos químicos e engenheiros hoje serão empregados na indústria tradicional? 10%? 5%? Dos 90% ou 95% que não terão acesso ao emprego na grande química, quanto se pode ter de empreendedor? Metade deles já formam um contigente de número suficiente para que esses desafios sejam contemplados, realizados e transformados em oportunidades.

 

Vamos portanto investir nos mecanismos facilitadores do acesso do profissional ao centro do conhecimento. Como, onde, quando é tema para nossas próximas discussões.