A Experiência da vida
- Subsolo da Filosofia

 

Sylvio R. G. Horta
(Mestre e doutorando Feusp)
roque@hottopos.com


A experiência da vida, apesar de determinar a nossa visão da realidade, tende a ser esquecida, a permanecer inconsciente. A filosofia, se quiser ser realmente filosofia, tem que justificar esse seu subsolo, que poderíamos chamar de pré-filosofia. Esta não é, em sua maior parte, filosófica, mas encontra-se nessa herança coletiva, constituída por provérbios, anedotas, fábulas, rituais etc.

Chove lá fora. A água enche a represa. Poucos trovões, poucas descargas elétricas. É impressionante como um fato tão banal - a própria realidade - que parece inquestionável, já venha carregado de interpretações milenares. Afinal, quem nos garante que o céu não cairá sobre nossas cabeças? Onde foi que aprendemos sobre trovões, raios e água como fenômenos físicos e não como manifestação da ira ou da generosidade dos deuses?

Cada detalhe de nossas vidas está afetado pela perspectiva que ocupamos. Perspectiva espacial, temporal, afetiva. Vital, enfim. Herdamos uma interpretação das coisas que nos cercam; interpretação não apenas teórica, mas também prática. Essa experiência herdada junta-se àquela que adquirimos pessoalmente ao viver e nos permite lidar com as coisas ao redor, com aquilo que nos cerca.

"Eu sou eu e minha circunstância" é a conhecida sentença de Ortega y Gasset. Ela mostra claramente que nem eu, nem aquilo que nos cerca - a circunstância - é tudo. O fundamental é o eu me encontrando com essa circunstância, isto é, a minha vida. A vida de cada um, realidade radical onde se radicam todas as outras realidades. É em minha vida que deparo com as coisas e comigo mesmo. Viver é estar vivendo, é drama, onde encontro a mim e as coisas.

Não nos basta, porém, a experiência de coisas. Essas são realidades radicadas na minha vida. Faz falta uma outra forma de experiência: a experiência da vida. Faz parte da realidade de cada vida ter uma visão do que é a própria vida. Sem essa visão - mais ou menos consciente - não seria possível viver.

Como adquirimos essa experiência? Sem dúvida, em parte, no nosso contato com outras pessoas. Suponhamos o caso de uma criança criada por lobos; será o instinto biológico suficiente para que ela possa viver o que chamamos de vida? Isso não significa que cada pessoa não possa trazer a sua própria perspectiva, mas que, certamente, ela se desenvolverá na medida de sua interação com os outros. A vida é sempre convivência.

Essa convivência poderá ser mais ou menos rica e a riqueza vital de cada um dependerá, em grande parte, disso. Uma criança que tiver sido tratada como pessoa - como alguém insubstituível que é - desenvolver-se-á muito mais do que uma criança tratada como cria, como mais uma.

De qualquer maneira, a criança receberá os valores daqueles que a criaram, da sociedade onde nasceu1 e, ao longo de sua vida, terá experiência de outras vidas, outras pessoas, outros valores, outras coisas. Essas experiências irão, aos poucos, sedimentar-se no fundo da pessoa, integrando-se na experiência da vida.

Como a vida não é uma realidade pronta, vive-se em direção ao futuro - somos futuriços como costuma dizer o filósofo espanhol Julián Marías - temos que nos projetar, imaginar a figura de vida que nos chama. Assim, a vida é real e irreal ao mesmo tempo e a experiência da vida também o é. E é isso que pode nos explicar como é possível adquiri-la através dos outros ou mesmo da ficção: histórias que nos contam, livros, cinema, etc. Mesmo o contato com os outros não resultaria em nada, se não usássemos a imaginação para compreendermos o outro. A percepção nunca é suficiente para entender a realidade humana, justamente porque, como dissemos acima, a realidade humana inclui, em si, a irrealidade.

Assim como o futuro, o passado também faz parte da realidade da vida humana e determina, também, o que somos hoje. Poder-se-ia medir o grau de nossa vida - se essa é mais ou menos vida, tanto na dimensão individual, quanto na coletiva -, pelo modo como se faz presente esse passado. Se quisermos viver uma vida realmente humana, teremos que nos apossar dessa experiência, desse subsolo que nos sustenta, que condiciona o nosso modo de entender a vida.

Uma de nossas primeiras tarefas será, justamente, a de procurar o que nos foi transmitido pelas gerações que nos antecederam e, principalmente, conhecer suas diferentes formas de vida, que servirão de contraste para que possamos descobrir a nossa própria realidade.

Como foi guardada, transmitida essa experiência da vida? Rituais, livros sapienciais, provérbios, fábulas, anedotas etc. A partir da vida de cada um, teremos que encontrar e dar um novo posto a essa sabedoria - bastante problemática –, mas que é fundamental para nossas vidas, principalmente em nossa época, em que teimamos em reduzir tudo à realidade de coisas: o homem é reduzido ora à biologia, ora à economia, ora à psicologia, ora à sociologia. A educação contemporânea, assim como os meios de comunicação, tem favorecido essa interpretação coisificada e fragmentária da pessoa, o que acaba por determinar o nosso comportamento em relação aos outros, que passamos a tratar como coisas. Só com uma volta à experiência da vida - e uma educação que a tenha em conta - é que poderemos resgatar o sentido da realidade da vida.