Seção Educação e Reflexão
Terrorismo de Laboratório
(ou dê à ciência o que é da ciência)

 

Sylvio Roque Guimarães Horta
(Mestre e Doutorando em Educação - FEUSP)
roque@hottopos.com

Toda ciência é uma enorme simplificação. Concentra-se numa dimensão da realidade e se desentende das outras. Um químico ao estudar os componentes de uma pintura, preocupar-se-á com a composição dos pigmentos de tinta, com a composição do tecido da tela. Não estará habilitado - enquanto químico - a falar sobre o estilo da obra de arte ou sobre o seu lugar na história.

 

Na verdade, simplifica a todo instante, faz-de-conta a todo momento. Quando junta ácido clorídrico com hidróxido de sódio e obtém água e sal, imagina um caso geral e não aquele em particular, em toda a sua concretude. Havia, por exemplo, um tudo de ensaio com NaOH e outro com HCl, mas foi ele quem os juntou. A reação, no caso, só ocorreu por que ele quis. Sem a sua vontade, no caso, não teria havido reação alguma, já que foi ele quem juntou o conteúdo dos dois tubos. Mas o químico não está interessado nisso. Para ele interessa só o momento em que os líquidos estão em contato e não a situação complexa que havia possibilitado aquela reação concreta.

 

Até aí não há problema. Este surge quando o hábito de abstrair vai se incorporando no homem de tal modo que ele se esquece disso. E não me refiro só ao químico, é claro. O mesmo se dá com o físico, com o bioquímico, com o médico, com o economista, com o sociólogo, com o psicólogo... Cada um se habitua a ver a realidade recortada por sua ciência e começa a pensar que a realidade é apenas aquilo, que pode ser reduzida àquela porção de realidade.

 

E assim começa a se espalhar a notícia... A ciência tem enorme e merecido prestígio. Com ela, mudamos o que se entende por vida na Terra. Em apenas um século e com grandes promessas no porvir, chegamos onde nunca havíamos chegado antes. Daí o prestígio da ciência e, juntamente, do homem de ciência que começa a falar sobre o que sabe e o que não sabe.

 

Cada especialista começa a opinar sobre a totalidade da vida humana. Cada um tenta reduzir a realidade à sua especialidade. E muitos parecem convincentes. As notícias são repetidas em jornais, em meios de comunicação, nas escolas. Vamos desde crianças aprendendo a ver a realidade desse modo, o que intensifica mais ainda o ciclo vicioso.

 

Bastaria considerar as diversas teorias econômicas, bioquímicas, psicológicas que explicam o comportamento do homem para desconfiar que há algo de errado nessas suposições. Como é que o fato de se nascer trabalhador ou burguês pode explicar o comportamento de um homem se, ao mesmo tempo, afirma-se que o comportamento é uma característica genética ou conseqüência da educação infantil e complexos edipianos? Como reduzir o amor a alguma forma de relacionamento típico de certa sociedade e ao mesmo tempo afirmar a descoberta da neuroquímica do mesmo? Como afirmar que o pensamento depende das estruturas cerebrais ou dos genes (o que já é dizer outra coisa) e dizer que é uma super-estrutura derivada da realidade econômica? E isso justamente quando o homem está a um passo de poder modificar a sua própria estrutura genética?

 

Observe uma mão de um trabalhador da roça e a mão de um estudante? Uma será grossa e calejada, a outra será uma "mão de pianista", como se costuma dizer. Ou seja, a genética não é suficiente nem para se explicar o fenótipo do indivíduo. Só entenderemos aquela diferença se levarmos em conta o ambiente, a realidade externa. E, não é só isso, não se trata apenas do ambiente físico, externo. Trata-se da realidade humana, em toda a sua complexidade. Só assim poderemos compreender o que seja um trabalhador, um estudante, uma bailarina, um soldado, um futebolista.

 

Isso não significa, evidentemente, que a mão do trabalhador vá contra as leis da química. O fato da química não poder explicar o que seja a realidade de uma caneta Bic, não quer dizer que o material da caneta esteja desrespeitando as leis da físico-química etc. Mas o sentido vital do que seja uma caneta tem muito pouco a ver com o conhecimento da sua química.

 

Que os jogadores de futebol estejam usando suas células, metabolizando suas moléculas, movendo tal e tal músculo de acordo com as leis da bioquímica e da fisiologia, isso não se coloca em dúvida. Mas que daí se derive o sentido do que seja um jogo de futebol...

 

Por isso, o filósofo espanhol, Ortega y Gasset, falava em terrorismo de laboratório ao ouvir teorias "científicas" ganhando o espaço - hoje em dia mais do que nunca -, nos meios de comunicação. Teorias que querem reduzir o comportamento amoroso do homem a tal e tal substância, a tal e tal gene recentemente decifrado. Ora convenhamos, não podemos explicar nem o sentido de uma caneta, nem os fenótipos mais banais se não levarmos em conta a realidade humana. Imagine explicar o relacionamento entre duas pessoas como atração hormonal!

 

Pense na complexidade desse relacionamento. Quantas dimensões envolvidas! A história pessoal de cada um, o que cada um entende por amor; imagine que um dos envolvidos seja religioso e outro não. O que cada época julga lícito ou não... Lembre-se da mão calejada e da mão de pianista, condições sociais que formam ou deformam o corpo, imagine-se as sutilezas das relações humanas!

 

O que há, realmente, é uma tendência a se negar a realidade pessoal em todas as áreas do conhecimento, a se tratar a realidade pessoal como se fosse uma coisa a mais entre as coisas. Necessitamos, mais do que nunca, nos instalarmos na espontaneidade da nossa vida. Deixar que a realidade se manifeste em toda a sua complexidade e veremos que, por outro lado, tudo se tornará mais simples. É como se atravessar a rua. Tratar-se-ia de um fenômeno absurdamente complexo caso tivéssemos que analisá-lo cientificamente. Teríamos que fazer uma análise do solo para saber se a resistência do mesmo seria suficiente para suportar o nosso peso; teríamos que ter um profundo conhecimento da bioquímica e fisiologia do corpo; uma compreensão da história das estruturas sociais de controle e da psicologia da percepção para que pudéssemos entender a função do sinal de trânsito e, na verdade... bastaria olharmos para os dois lados com atenção e atravessarmos a rua. Espontaneamente. Simplesmente. É claro.