O Relato de Marco Polo e a
 
Nova Floresta de Bernardes

 

Pedro Garcez Ghirardi
Universidade de São Paulo

 

 

Ainda hoje causa admiração a jornada que na segunda metade do século XIII levou Marco Polo de sua cidade de Veneza até o Extremo Oriente, onde permaneceu por cerca de vinte anos. E não é menos de admirar a repercussão do relato dessa jornada. Ouvi-lo do próprio Marco, de volta à Itália, em 1298, bastou a despertar a curiosidade de Rusticiano (ou Rustichello) de Pisa, hoje só por isso lembrado, mas então conhecido como escritor em langue d'oïl. Nesta língua transcreveu Rusticiano as narrativas do viajante, que hoje se conservam não no original (perdido), mas em diversas traduções italianas medievais. Surgiu assim o texto que veio a ser popularmente conhecido como Milione, título de significado discutido, provavelmente nome familiar vindo de um antepassado (Emilione) ou talvez calcado no latim (milia), com manifesta alusão à longa viagem narrada. Mais longa e duradoura, como de início se dizia, foi a viagem dessa obra.

 

Não é possível traçar agora, nem sequer sumariamente, os roteiros do Milione ao longo de sete séculos. Ainda que nos limitássemos à sua recepção no mundo ibérico, o que há por dizer excederia em muito o que pode aqui caber. Na Península marcada pela vocação para as "Índias", o livro de Marco Polo não poderia deixar de encontrar leitores. Entre eles estariam Cristóvão Colombo e o Infante Dom Henrique, a quem a República de Veneza teria oferecido a obra. E em Portugal encontraríamos uma das mais antigas traduções ibéricas do Milione, feita a partir de versão latina. Trata-se do Livro de Marcos Paulo de Veneza, das condições e costumes das gentes e das terras e províncias orientais.... A edição portuguesa, de 1502, é devida a Valentim Fernandes. Difundidas em Portugal devem ter sido também as traduções castelhanas, como a que leva o título de Libro del famoso Marco Polo veneciano de las cosas maravillosas que vio en las partes orientales..., publicada por Miguel de Enguía em 1529, edição de que se conserva exemplar no Brasil, na Biblioteca Nacional. Nem se esqueça que as referências feitas a Marco Polo por escritores renascentistas seriam também fonte importante, embora indireta, de seu conhecimento pelos eruditos ibéricos.

 

Em português, portanto, como em castelhano ou em latim (para não falar em outras línguas) inúmeros leitores passaram a seguir os caminhos de Marco Polo, nos tempos áureos da entrada dos europeus nas Índias Ocidentais e Orientais. E é notável que o passar dos séculos não significasse esquecimento da obra do veneziano. Exemplo ilustre do que se acaba de afirmar é dado por um maiores mestres da prosa portuguesa: o Padre Manuel Bernardes.

 

Será talvez à primeira vista inesperado o interesse do grande oratoriano para com a narrativa do Milione. Mas nesse interesse se manifestava a renovada atenção da Igreja pós-tridentina para com as missões orientais. Note-se o surgimento, em Roma, da Congregação de Propaganda Fide (1622). Note-se também, desde meados do século XVII (com ressonâncias além dele) a famosa "Questão dos Ritos", em que alguns missionários se viram acusados de mimetização heterodoxa de costumes asiáticos. No âmbito político, não se pode esquecer que Portugal voltava restaurado ao Oriente, onde outros povos lhe ameaçavam as conquistas. A Manuel Bernardes não faltariam, portanto, razões de se mostrar indagador atento da vida e dos costumes orientais. E para tanto se valia não só de fontes portuguesas, como Manuel de Faria e Sousa, ou Fernão Mendes Pinto, mas também de escritos de viajantes e missionários italianos, como em ligeiro estudo procurei ressaltar (1). Entre estes escritos, a obra de Marco Polo.

 

Sobre as fontes italianas de Bernardes (e não só no tocante aos temas orientais), cabe logo uma observação que levará a perceber a singularidade do caso de Marco Polo. É que os escritores italianos citados por Bernardes são lembrados, quase sempre, por seus escritos em latim. Isto não porque o oratoriano português desconhecesse a língua italiana (ao contrário, sabe-se que desta língua traduziu com perfeição o Paraíso dos Contemplativos). A razão, se não me engano, é que seus interesses o levavam a buscar, em outras nações, principalmente escritos de filósofos e teólogos. E estes, na Itália, escreveram em geral em latim até o século XVIII (Muratori, por exemplo, que tanta influência teve em Portugal por meio de Verney, escreveu em latim parte considerável de sua obra). Não são numerosas as exceções ao mencionado predomínio das fontes italianas em latim, na obra de Bernardes. E tratando-se de escritores italianos medievais, um futuro estudo sobre sobre as fontes de Bernardes irá talvez estabelecer que o oratoriano só os consultou em seus textos latinos.

De fato, para ficarmos na mais célebre obra de Bernardes, a Nova Floresta, é significativo o caso da menção aos escritos de Jacopone da Todi. Desse franciscano do século XIII, autor de notável poesia sacra em vernáculo italiano, o que menciona a Nova Floresta é uma composição latina, a ele atribuída. Ao apresentá-la, acrescenta Bernardes que Jacopone a compôs "entre outros versos" (2), o que leva a crer que não lhe fosse desconhecida a poesia vernácula do franciscano, embora a omita. Quanto aos exempla de que é protagonista Catarina de Siena, parecem remontar à Legenda latina de Raimundo de Cápua Mais significativo é o que ocorre no caso de Petrarca, muitas vezes honrosamente citado por Bernardes, mas sempre como pensador latino e não como poeta em italiano (3). Marco Polo seria, pois, a único medieval italiano presente na Nova Floresta como autor de obra não escrita em latim.

 

Mesmo esta exceção, contudo, viria confirmar que só através do latim consultava Bernardes os medievais italianos. Sim, pois pode conjecturar-se que a primeira notícia que lhe chegou da narrativa de Marco Polo terá sido encontrada na obra latina de um erudito italiano do século XVI, Simone Maiolo, apontada como fonte de relato atribuído ao veneziano (4). Isto não quer dizer que Bernardes não tenha tido acesso direto à obra de Marco Polo, que, aliás, várias vezes cita. Mas ainda quando o faz, reporta-se à tradução latina intitulada Rerum Orientalium (5). Trata-se, provavelmente, de tradução realizada, pouco depois de 1300, por um cronista dominicano de Bolonha, Francisco Pepino, que para a transposição consultou um texto "lombardo", isto é, uma das inúmeras versões vernáculas correntes na Lombardia, termo que então designava todo o norte da Itália. Note-se que essa tradução latina, feita para uso de missionários, teve grande difusão ainda em vida de Marco Polo, o que a torna especialmente valiosa.

 

Consultada em latim, a curiosa narrativa do veneziano veio a ser repetidamente citada na Nova Floresta. E citada como fonte digna de fé, à qual Manuel Bernardes dá ouvidos, ainda que por vezes hesitante ("creia quem puder"). Nem se veja no crédito dado um exemplo do escasso sentido crítico de que por vezes se acusa o oratoriano, pois semelhante confiança se tem repetido em estudos posteriores. Mesmo ao relatar notícias a que Rusticiano terá dado contornos romanescos ou fabulosos (como a do pássaro roca, que abaixo se transcreverá), Marco Polo distingue entre o que ouviu dizer e o que testemunhou de visu. E seu testemunho pessoal encontrou confirmações em diversos viajantes e missionários que se lhe seguiram. Por esta e outras razões, hoje se tende a partilhar o apreço de Bernardes por "Marco Polo, em muitas outras maravilhas fidedigno" (6).

 

Mas as notícias do veneziano, Bernardes não as acolhe como informações meramente eruditas ou curiosas, e sim como fundamento das reflexões morais. As observações do Milione servem de ilustrar ou desenvolver alguns dos exempla que compõem a Nova Floresta. Os costumes orientais do século XIII são comparados, por vezes vantajosamente, aos que se quer reformar nos europeus de fins do século XVII. Esse intuito moral, sempre presente, não impede, por outro lado, que o leitor da Nova Floresta também se recreie com narrativas exóticas. Aliás, já o subtítulo da obra de Bernardes adverte que nela "o útil da doutrina se alia com o vário da erudição".

Assim é que a erudição e a doutrina juntas provocam a citação de um relato de Marco Polo, comentado com as palavras elogiosas que há pouco se lembravam. Comentário que conclui a descrição do pássaro capaz de. levar pelos ares "a um elefante, como fez a ave ruch, própria da ilha de Madagascar, segundo nos refere (creia quem puder) Marco Polo, em muitas outras maravilhas fidedigno" (7).

 

A notícia divulgada pela Nova Floresta encontra-se, efetivamente, no Milione, onde Marco Polo afirma ter ouvido que naquela ilha haveria pássaros (cito moderna tradução anônima) "como águias muito grandes. Contam que são tão fortes que levantam ao ar um elefante, deixando-o cair de tão alto que rebenta, quando chega ao solo. [...] Os habitantes da ilha chamam-lhes 'ruth' e não lhes dão outro nome" (8). Mas em Bernardes, como se advertiu, a informação erudita sempre tem intuito moral: o pássaro roca torna-se imagem dos ambiciosos, que roubam o próximo no corpo e no espírito e que não se limitam a atacar elefantes, pois "arrebatam cidades e reinos inteiros e nas unhas lhes ficam" (9).

 

Como se disse, é o "útil da doutrina", a lição moral, o que tem em vista a Nova Floresta ao buscar em Marco Polo o "vário da erudição". Assim, é o memento mori que se inculca, ao citar outra de suas páginas. Nela se refere a pompa do "rei da Tartária, que entra ele só por uma porta e todos os mais da comitiva por outras duas colaterais". Semelhantes "singularidades", adverte Bernardes, "pisa e escarnece a morte" (10).

 

À mortalidade do soberano tártaro, como fonte de ensinamentos morais, volta a aludir o oratoriano, desta vez advertindo contra a loucura da lisonja, causadora de espantoso suicídio coletivo. Este caso é "o que refere Marcos Paulo, vêneto, da morte de outro imperador da mesma Tartária, em que se mataram trinta mil [súditos] [...] Se isto mandara a lei de Deus, quem se atrevera a guardá-la?" (11). É ainda aos exageros na guarda do luto que Bernardes vai pedir novo exemplo moral: "Excesso era o das viúvas de Cormos, cidade da Pérsia, das quais escreve Paulo vêneto que choravam os maridos defuntos ao menos uma vez cada dia, por quatro anos contínuos" O comentário moral é também exemplo do humorismo de Bernardes: "Bem aviada estava a Samaritana se sobre ela caísse essa lei, havendo enterrado cinco maridos; mais água tiraria dos seus olhos que do poço de Sichar" (12).

 

Se há entre os povos longínquos hábitos reprováveis, outras vezes de seus costumes se extraem lições proveitosas. Eis por que foi Bernardes buscar em Rerum Orientalium esta notícia: "Cento e quatro vezes ao dia devem lembrar-se de seus deuses os reis do Malabar, na Índia; e, para despertador desta obrigação, trazem ao pescoço, enfiadas em cordão de seda, outras tantas pérolas mais grossas e netas". Mas se com tanto empenho recordam os pagãos as leis de seu culto, "a lei da Caridade [...] por que razão nos não há de lembrar cada dia?" (13).

 

A aliança entre "doutrina" e "erudição" volta a se observar neste outro relato: "Nos reinos do Grão-Cã (segundo escreve Paulo Vêneto), a moeda que corre não é de ouro, nem de prata, mas de pau de moreira, cortado em várias formas, e acunhada com o real selo, e há pena de morte irremissível a quem o não aceitar. Este cunho lhe dá o valor que lhe nega a matéria." (14). Vale reler o texto de Marco Polo: "faz o Gran-Khan cunhar moedas da seguinte forma: pegam na casca das árvores, geralmente das amoreiras [...] e [...] fazem uma pasta, como a do papiro, de cor muito escura, quase preta. Estes papéis ou tiras são cortados de vários tamanhos [...]; aos mais pequenos, dá-se o valor de metade de um soldo; outros, maiores, valem um soldo, outros, meio ducado de Veneza [...]. Todos estes papéis e cartões têm o selo do Gran-Khan. [...] Ninguém pode rejeitar esta moeda, sob pena de ser condenado à morte" (15). É escusado acrescentar que com esse exemplo a Nova Floresta exalta a gratidão, visto que "por vil e mínima que seja a coisa que o amigo nos oferece, já traz o selo do amor" (16).

 

Como ficou dito, o que atrai para a obra de Marco Polo as atenções de Bernardes é a ocasião que lhe oferece de refletir sobre as grandes questões da existência humana, tidas como fundamentalmente iguais, apesar da diversidade de costumes. O que o leva a buscar o Milione, ou melhor, Rerum Orientalium são notícias que, apesar do aparente exotismo de costumes tártaros ou persas, permitem tirar ensinamentos que tanto se aplicavam a esses povos quanto a seus contemporâneos lisboetas. É preciso acrescentar que esta perspectiva de leitura não anda esquecida entre os modernos apreciadores de Marco Polo. Basta lembrar o romance As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, onde na descrição das mais longínquas povoações asiáticas assoma a constante lembrança de Veneza. Aliás, esse romance, já traduzido entre nós, contribuiu a difundir o Milione junto ao público brasileiro. Parece, pois, que as peripécias de Marco Polo entre povos distantes ainda estão longe de concluídas. E quando se traçar a história da recepção de sua obra nos domínios da língua portuguesa, será imprescindível reconhecer o lugar de relevo que lhe deu a Nova Floresta de Manuel Bernardes.

 

Notas


(1) "O Oriente na obra de Bernardes: fontes italianas". In: Rifka Berezin (org.), Cultura Oriental e Cultura Ocidental; Projeções. São Paulo, FFLCH-USP, 1990.

(2) Nova Floresta, Lello, Porto-Lisboa, 1949, tomo V, p. 505. As demais citações de Bernardes serão feitas segundo essa edição, em cinco tomos, aqui indicada como NF.

(3) Sobre o assunto esbocei algumas indicações em "Un lettore del Petrarca latino: il padre Manuel Bernardes". Boletim do Centro de Estudos Portugueses, São Paulo, FFLCH-USP, 1986.

(4) NF, IV, 283. Maiolo é diversas outras vezes citado por Bernardes (cfr. NF, I, 530-531; II, 190; III, 507, 537, 562 com referência aos Dierum Canicularium).

(5) NF, IV, 288.

(6) NF, IV, 283.

(7) NF, IV, 282-283.

(8) Marco Polo, O Milhão. Porto, Editora Educação Nacional, s.d., p. 316-317.

(9) NF, IV, 283.

(10) NF, II, 230

(11) NF, I, 166.

(12) NF, IV, 40-41

(13) NF, III, 151

(14) NF, IV, 288.

(15) trad. cit., p. 162.

(16) NF, IV, 288.