Os Amthal na Cultura Árabe

 

Luiz Jean Lauand
(Faculdade de Educação da USP)
jeanlaua@usp.br

Ma qal al-mathal shay min kadhab
(Os provérbios nunca mentem...)

Introdução - Para entender os provérbios árabes

Bi-culturalismo - A coletânea que apresentaremos na matéria seguinte é uma pequena amostra dos cerca de dez mil provérbios conhecidos no mundo árabe[1]. Nasceu de uma tese de livre-docência apresentada em 1995 à Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, ao longo da qual, como um dos tantos brasileiros filhos de imigrantes, procurei compreender mais profundamente minha identidade cultural-existencial.

            Na verdade, nossa seleção de provérbios transcende os objetivos do simples estudo acadêmico. Expressa a experiência de um bi-culturalismo, é uma confidência e uma conscientização, é o resultado de um trajeto intelectual mesclado a um autêntico processo de autoconhecimento.

            Para além da fria e objetiva "pesquisa" do "tema" dos amthal[2], encontro aqui um passado presente, um afeto familiar, também no outro sentido da palavra, o de afeição antiga, sem data precisa, lá em alguma região de uma infância - na época, sem a onipresente televisão - rodeada pelo calor daquelas tertúlias em que o relógio parava, e nós nos vertíamos na conversação: relatos, recordações, episódios divertidos (recontados mil vezes, com o mesmo sabor da primeira), conselhos, provérbios etc. Infância foi marcada pelo intenso convívio com quatro avós libaneses - Mikhail, Wadiah, Yussuf e Mariam. Como falavam em árabe (ou em "burtuqárabe"...) com meus pais e tios (alguns nascidos no Líbano), haurimos deles (e de vizinhos libaneses no bairro do Paraíso, em São Paulo) tantos aspectos dessa tradição cultural que, para além das marcas afetivas, influenciaram também - como sujeito dessa pedagogia informal, que é a pedagogia do mathal - minha formação como um todo.

            Misturava-se português e árabe. O árabe era a língua dos antigos, do mistério, usada tanto para a hiperbólica expansão da afetividade como para outros exageros orientais: nossas bacias hidrográficas brasileiras nem de longe podiam competir em tamanho com o rio Bardauni... E quando perguntaram ao zahlauy pela população da cidade ele retrucou:

- Depende.

- Depende do quê?

- Em tempo de guerra ou em tempo de paz?

- !!??

- Sim, porque em tempo de paz, dez mil; em tempo de guerra, cem mil.

- Por quê?

- Porque em tempo de guerra, cada um de nós vale por dez...

            Aprendi centenas de amthal na época, mas só com o tempo vim a conhecer o provérbio libanês que diz:

Os maiores mentirosos são o jovem emigrado e o velho cujos contemporâneos morreram.

            E também só mais tarde ouvi o antológico diálogo entre Leila e seu pai:

- De quantos soldados, papai, se compunha aquele exército numeroso, tão belamente descrito por meu avô nestes versos: "Era um exército multicolorido e garboso, cuja cabeça fazia sua entrada em Damasco enquanto sua retaguarda ainda não se havia movido de Medina"?

- Precisamente eu me encontrava nele, minha filha. Éramos quatro: eu, meu filho e dois escravos[3].

            Seja como for, meus avós imigrantes logo se integraram ao novo país - e a gratidão é o valor árabe supremo! -, aprendendo a amar o Brasil apaixonadamente. Ocorreu com eles, literalmente, o que descreve Helmi Nasr a seu próprio respeito: "Há uma semelhança entre o povo brasileiro e os árabes: os dois são espirituais e sabem valorizar a amizade, a cordialidade, a harmonia das relações humanas; sabem ajudar, sacrificar-se, ser generosos. Eu vivi muitos anos na Europa e sempre me senti estrangeiro; já no Brasil, desde o primeiro dia, senti-me em casa. O brasileiro é muito acolhedor e não está imerso no materialismo como alguns europeus. Aqui, o árabe está tão à vontade que acaba se esquecendo de voltar; um árabe chega para ficar, digamos dois ou três anos, e não quer voltar, acaba ficando trinta ou quarenta anos, a vida toda..."[4].

            No início, meus avós ainda protestaram (inutilmente e, no fundo, simbolicamente) quando começaram os casamentos (e não só de seus filhos nascidos no Líbano...) com "brasileiras". E - Al-hamdu lillah! - esqueceram-se também das profundas divergências religiosas, cultivadas no Oriente, aprovando o casamento de seus filhos Jan (rumm, ortodoxo) e Rosa (de arraigada tradição maronita). Mas somente quarenta anos depois desse enlace vim a conhecer o terrível mathal:

É muito mais fácil que se necessite do alho como ingrediente na knafah do que amor entre uma maronita e um rumm.

            Knafah é o conhecido doce cujos ingredientes são: queijo, semolina, manteiga e muito açúcar. "Alho na knafah" equivale aos nossos "no dia em que a galinha criar dentes..." e "no dia de São Nunca".

            Somente na maturidade eu mesmo viria a descobrir e escrever: "Enquanto o ocidental cultua a razão racionalista e persegue a lógica, que, afinal, organizam e universalizam a expressão, o árabe valoriza a sugestão, a insinuação. As múltiplas realidades suscitadas pela palavra terão a marca da percepção individual, ficando preservada a intimidade e a autenticidade da relação do homem com o mundo. Por isso, tantos desacertos do ocidental ao interpretar literal e cartesianamente a expressão árabe. E, reciprocamente, o árabe fica perplexo ao constatar que a intuição e a subjetividade (tenha-se em conta que a dicotomia objetivo/subjetivo, como mutuamente excludentes, é parte do ideário ocidental) - de importância nuclear na visão de mundo oriental - importam pouco para o Ocidente com seu vezo de <<objetividade>>"[5]. E "no âmbito dos sentimentos, a exuberância da imaginação árabe é insuperável no mapeamento da alma humana. Auxiliada por incisivos provérbios e metáforas, a língua árabe demonstra que a fantasia nem sempre é fantasiosa, mas, muitas vezes, supera a fria razão na captação da realidade"[6].

            O árabe era a língua dos desfechos - para os netos, enigmáticos - dos relatos que suscitavam ruidosas gargalhadas. O árabe era usado tanto para as exclamações religiosas como para as palavras fortes ou "inconvenientes"; e para assuntos que as crianças não deviam entender... A sonoridade do árabe (com acento libanês) tinha um sabor de ritual: não entendíamos as palavras, mas intuíamos do que os mais velhos estavam falando. Pela prosódia, pela musicalidade ou pelo planger da voz (o libanês, por vezes, fala "chorando"...), sabíamos se se tratava de recordações, de referência a alguma pessoa querida, de negócios ("duplicata", por exemplo, era uma das palavras portuguesas que, às vezes, se misturava ao árabe...) etc.

            A infância marcada por esse Oriente - brincando, brincando... - acabou por imprimir um senso de prevalência do concreto imaginativo (base do humor árabe, das metáforas, e de todo tipo de mathal), de homogeneidade do tempo, de presença viva do passado e de tantos outros aspectos que serão tocados ao longo deste estudo.

            Ao final deste tópico, quero registrar o agradecimento a meus mestres, Prof. Dr. Helmi M. I. Nasr e Profa. Dra. Aida Ramezá Hanania, com quem aprendi que na mesma e única raiz árabe - S-D-Q - coexistem os significados de amizade e confiança.

Língua e forma de pensamento

            Para entender os provérbios e o alcance do papel exercido pelo mathal na cultura árabe é necessário antes conhecer algumas características da língua árabe. Como se sabe, as características de uma língua transcendem o âmbito da mera comunicação e influenciam decisivamente o próprio modo de ver o mundo, condicionando de modo fundamental a cultura e todas as suas manifestações. Daí que o filósofo alemão contemporâneo Johannes Lohmann prefira falar - e ele contempla, de modo especial, o caso do árabe - em sistema de língua/pensamento[7].

            Compreender as bases do sistema língua/pensamento árabe é o primeiro passo para analisar os amthal como fenômeno tipicamente oriental (semítico e árabe).

            Destacam-se, assim, sete características da língua/forma de pensamento árabe: o peculiar uso da frase nominal, a associação imediata, a flexão de raízes, o pensamento confundente, a metátese, o papel da imagem concreta e a ligação com o passado.

            Estes pontos da língua/forma do pensamento árabe parecem-me particularmente importantes para a análise do papel dos provérbios na cultura árabe, sem que nos esqueçamos de outras características, as culturais, próprias da mentalidade árabe: a hospitalidade, o apreço pelas narrativas, pelo juramento etc.

            Uma observação importante sobre as relações entre língua e forma de pensamento é a de que "o que nos interessa não são as línguas em si, mas as línguas enquanto pré-determinam uma certa concepção de mundo para o falante, ou como diz Heidegger, eine Erschlossenheit des Daseins"[8]. Em outras palavras, o alcance do pensamento condiciona-se pela linguagem. Não só pelo maior ou menor número e profundidade de conceitos e potencial expressivo dos vocábulos, mas também (e principalmente) pelas estruturas peculiares de cada língua ou famílias de línguas.

O verbo "ser" e a frase nominal

            Um primeiro fato gramatical/mental que fundamenta o conceito lohmanniano de língua/pensamento dá-se em torno dos peculiares usos do verbo "ser". Ao contrário do árabe, no centro semântico do sistema grego "encontra-se o verbo esti (ser) que, segundo Aristóteles, está implicitamente contido em qualquer outro verbo"[9]. O ocidental, desde o início da aprendizagem formal da língua, está acostumado a pensar que toda frase é composta de nome e verbo. Quando, porém, entra em contato com a gramática árabe, surpreende-se com a presença constante da frase nominal, isto é, com o que, do ponto de vista ocidental, se considera frase nominal.

            Para o árabe simplesmente não existe o verbo "ser" como verbo de ligação, e ele está muito mais familiarizado com a frase nominal do que o ocidental que, nesses casos, pressupõe implícito o mesmo verbo "ser". Essa função copulativa do verbo "ser" é uma particularidade das línguas indo-européias a que já estamos tão habituados que não reparamos quanto é dispensável nem temos consciência de que possa inexistir em outras famílias lingüísticas. Nós mesmos prescindimos do verbo "ser" em certos contextos[10] e, particularmente, em enunciados proverbiais, como "tal pai, tal filho", "casa de ferreiro, espeto de pau", "cada macaco no seu galho". E não por acaso é precisamente no campo dos provérbios que o ocidental aproxima-se da estrutura lingüística (e da forma de pensamento...!) árabe. A tradição ocidental herdou a consideração de que o verbo "ser" - que o português e o espanhol desdobram em "ser" e "estar"[11] - encontra-se presente (ou pelo menos implícito) em toda sentença e subjaz a toda ação verbal. Por exemplo: "Chove" corresponde a "é/está chovendo". Quando emprega a frase nominal, o ocidental pretende expressar algum tipo de ênfase peculiar[12], ao passo que o árabe, ao fazê-lo, está simplesmente se exprimindo de modo espontâneo, de acordo com sua postura diante da vida, com seu espírito essencialmente poético. Daí a particular afinidade da língua árabe com a estrutura dos provérbios, como se pode ver nos seguintes amthal:

Cão do grande, grande, e cão do príncipe, príncipe.

(Kalb al-kabyr kabyr wa kalb al-amyr amyr)

            O sentido é claro: O cão que pertence ao homem grande deve - em atenção a este - ser tratado com a mesma deferência devida a seu dono e, do mesmo modo, o cão do príncipe é, por extensão, príncipe também.

Opressão do gato e não justiça do rato.

            Ou seja, é preferível, é mais suportável (se não houvesse outra possibilidade de escolha) a opressão exercida pelo gato no poder do que a justiça do rato. O sentido é claro: o mais decisivo é a retidão moral do poderoso...

Associação imediata

            Se o sistema língua/pensamento logos - tal como se refere Lohmann ao sistema grego -, centrado no verbo "ser", promove a busca de correspondência exata entre pensamento e realidade[13], o sistema árabe, ma'na, tende a um pensamento (e a uma comunicação...) por associação imediata, em que as conexões lógicas não precisam ser explicitadas. Obviamente, os diversos fatos lingüísticos (lingüístico-mentais) que estou enumerando um tanto compartimentadamente são, na realidade, interligados. A associação imediata é o complemento natural da ausência do verbo "ser" enquanto verbo de ligação, o que se pode evidenciar - entre tantas outras instâncias - em diversos enunciados de provérbios como, por exemplo[14]:

O vizinho antes da moradia.

(Al-jar qabla ad-dar)

            É mais importante pensar no vizinho que se vai ter do que na casa em que se vai morar.

O companheiro antes da viagem.

(Ar-rafyq qabla at-taryq)

            Mais importante do que a viagem que se vai fazer é ter um bom companheiro de viagem.

            Curiosamente, o melhor exemplo ocidental desse aspecto da forma de pensamento árabe, marcada pela ausência do verbo "ser", é encontrado na poesia que mais insistentemente dele faz uso: Águas de Março, de Tom Jobim.

            Grande e grandiosa, inquietante, Águas de Março soa a nossos ouvidos, sempre de novo, conforme sua letra, como "um mistério profundo". Parte desse mistério reside, talvez, no fato de a poesia de Águas de Março nos arrancar de nossos padrões usuais de pensamento ocidental e nos conduzir às formas de pensamento do Oriente, por excelência "lugar" do mistério.

            Heidegger - ao final de seu Que é a filosofia?[15] - diz que não só a linguagem está a serviço do pensamento, mas também se dá o contrário. É bem o caso de Águas de Março, em que, tal como a linguagem-pensamento árabe, em vez dos complicados discursos lógico-gramaticalmente articulados pela mente ocidental[16], encontramos um rápido e cortante suceder de flashes em frases nominais provenientes de uma imaginação fulgurante, com a irresistível força da imagem concreta.

            Uma cena, digamos, como a de abater um pássaro, seria, no limite típico-caricatural, descrita por um ocidental nos seguintes termos: "Estava um pássaro a voar no céu, quando eu o vi. Ora, ao vê-lo, interessei-me por ele e, dado que dispunha de uma atiradeira, muni-me de uma pedra, mirei-o e disparei a atiradeira, a fim de atingi-lo; de fato, atingi-o e, por conseguinte, ele caiu, o que me possibilitou apanhá-lo com a mão". Já o árabe tende a apresentar essa mesma cena do modo como o faz Tom Jobim em Águas de Março: "Passarinho na mão, pedra de atiradeira". Os enlaces lógicos ficam subentendidos por detrás da sucessão de imagens. E o mesmo ocorre, por exemplo, com este outro verso da mesma canção: "carro enguiçado, lama, lama" (em ocidental: "O carro enguiçou, devido à avaria provocada por excesso de lama", excesso antes expresso semiticamente pela repetição: "lama, lama") etc.

            Naturalmente, a presença constante do verbo "ser" na letra de Águas de Março não invalida a semelhança com o caráter oriental do pensamento (onde se empregam frases nominais e não o "é"), pois se trata da forma fraca, descartável, desse verbo.

            Aliás, a orientalização[17] chega ao extremo quando, no final da canção, interpretada por Tom e Elis Regina, o verbo ser é suprimido e se diz simplesmente:

Pau, pedra,       fim caminho

Resto, toco,      pouco sozinho

Caco, vidro,      vida, sol

Noite, morte,     laço, anzol

Flexão de temas e de raízes

            Um outro importante aspecto do sistema língua/pensamento é assim expresso por Lohmann: "O árabe, como o semítico em geral, de um lado, e o grego, de outro, estabelecem relações com o mundo: um, principalmente pelo ouvido e o outro, pelo olho. Tal fato levou o falante semítico a uma preponderância da religião, enquanto o grego tornou-se o inventor da teoria. Daí decorre (ou procede...?) uma diferença análoga das respectivas línguas, quanto a seu tipo de expressão. Cada um desses dois tipos caracteriza-se por um procedimento gramatical específico: flexão de raízes no semítico e flexão de temas no indo-europeu antigo"[18]. Este fato é de extraordinário relevo para a compreensão da visão de mundo oriental com sua "indeterminação" e flexibilidade semânticas, que se manifestam primeiramente em fenômenos de sintaxe. Lohmann chama a atenção para a dimensão semântica de a flexão (de desinência) grega/latina deixar inalterada a raiz da palavra (correspondente à ousía, à substantia). No exemplo tradicional das gramáticas elementares de latim, o radical ros, de rosa, permanece fixo, pois uma rosa é uma rosa; qualquer outro fator (seu relacionamento com o mundo exterior, com o pensamento humano ou com qualidades que são nela), da cor da rosa (genitivo) ao mosquito nela pousado (ablativo), é refletido pelas desinências rosam, rosarum, rosae etc. O árabe, por sua vez, não tem radicais fixos: o radical trilítere, digamos S-L-M, é intra-flexionado: SaLaM; iSLaM; SaLyM; muSLiM etc.

Pensamento confundente

            Para compreendermos a complexidade do potencial semântico dessas raízes semíticas, e para poder estabelecer relações com os amthal, recolho aqui algumas considerações sobre o conceito - tomado aos filósofos espanhóis Julián Marías e José Ortega y Gasset - de "pensamento confundente".

            Esse conceito não traz, em si, nenhuma carga pejorativa; trata-se antes de uma legítima e fecunda forma de pensamento, como explica Julián Marías: "Uma das mais interessantes descobertas de Ortega y Gasset é a do pensamento confundente (grifo nosso): confundir é uma função tão necessária quanto distinguir, porque permite descobrir as conexões entre realidades que, por outro lado, é necessário distinguir [...]. Muitas vezes me tenho referido à vaguíssima e estupenda palavra de nossa língua <<bicho>> - palavra exasperante para um zoólogo [...] -, que permite designar inúmeras espécies animais, prescindindo de suas diferenças. Se estou lendo ou escrevendo e entra um inseto pela janela - como no poema de Dámaso Alonso -, não poderia tomar facilmente uma decisão de conduta se tivesse que comportar-me com ele de acordo com sua espécie. Mas, o que quero é unicamente tirá-lo daqui, e tenho que tratá-lo como <<bicho>> sem estabelecer outros questionamentos"[19].

            Essa atenção ao confundente no sistema língua-pensamento-realidade é uma rica dimensão da forma de pensamento das línguas semíticas. Como se sabe, nas línguas semíticas (como o árabe ou o hebraico), a mesma palavra ou, mais amplamente, o mesmo radical tri-consonantal[20], confunde em si (de um ponto de vista ocidental) diversos significados, oferecendo-nos a oportunidade de apreensão de relações de significado até então insuspeitadas.

            Pense-se (é um primeiro exemplo) no fato de que o árabe - pela "confusão" de sentidos no radical S-D-Q - é convidado (ou mesmo compelido) a pensar como indissociáveis conceitos tão distintos (para o ocidental) como amizade e confiança.

            É o caso também do radical S-L-M da palavra salam (ou, em hebraico, Sh-L-M de shalom), que o ocidental costuma traduzir por "paz". Em torno desta raiz, S-L-M, confundem-se na linguagem - e no pensamento...[21] -, entre muitos outros, os significados de: integridade[22] no sentido físico[23] e moral (salym é o íntegro); saúde (e fórmula universal de saudação), normalidade (o plural sálim na gramática é o plural regular); salvação ("sair-se são e salvo", mas também salvação no sentido religioso); submissão, aceitação (de boa ou má vontade), daí islam e muslim (muçulmano); acolhimento; conclusão de um assunto; paz etc.

            Exemplifiquemos também com um contexto familiar, o da Bíblia. Nela encontramos o radical S-L-M "confundindo" diversos conceitos, para o pensamento ocidental totalmente distintos. Assim, de Salomão (Salumun, Sulaiman), Deus diz a seu pai Davi (este, sim, um homem de guerras): "Este teu filho será um homem de paz, pois Salomão é o seu nome" (1 Crn 22,9). E Deus, apesar da infidelidade do rei, mantém a integridade, a união do reino de Salumun e diz: "Todavia, não tirarei da mão dele parte alguma do reino..." (1 Reis 11,34). S-L-M, no sentido de concluir, acabar, aparece no livro de Esdras, em que encontramos Sesabassar encarregado da construção do templo, "que ainda não está concluído" (Esd 5,16). S-L-M, como entregar completamente, colocar ao inteiro dispor, é usado em: "Deposita diante de Deus, em Jerusalém, os utensílios que te foram entregues, para o serviço do templo do teu Deus" (Esd 7,19). Etc. etc.

            Mas são os provérbios - que trazem em sua breve formulação uma unidade completa de sentido, dispensando qualquer outro contexto textual - que melhor permitem percorrer, rapidamente e com plenitude de sentido, a gama semântica de uma raiz árabe. Adquirem, desse modo, enorme importância na aprendizagem da língua e na compreensão da mentalidade. Para o caso do exemplo que estamos analisando, os diversos significados confundidos na raiz S-L-M, destaco os seguintes amthal:

A vasilha não pode ir sempre ao fundo do poço e sair sempre inteira.

Ou seja: não devemos estranhar que, com o tempo, a vida acarrete as suas naturais dilacerações e desgastes.

Ó Senhor, concede-nos sempre o convívio dos poderosos,

 mas mantém-nos incólumes...

A prece insinua o caráter muitas vezes voluntarioso e violento dos que detêm o poder e distribuem benesses e castigos sem maiores considerações.

Se a vinha estivesse protegida de seus

próprios guardas produziria toneladas.

A ironia vence os séculos e denuncia os que se aproveitam de uma função social em proveito próprio.

Sem defeito, garantido pelo ferreiro!

Faz referência ao costume oriental de consultar o ferreiro antes de comprar um cavalo.

O que começa por definição de condições, acaba em paz.

Num negócio, num acordo, num jogo, não fixar claramente as cláusulas é expor-se a rixas e desavenças.

Aquele que se glorifica a si mesmo te enviou saudações.

Frase feita para referir-se a uma pessoa vaidosa.

Nem sequer um "olá" {salam}!

Reclamando da falta de educação de alguém que sequer cumprimentou: salam, sem mais, é o cumprimento mínimo!

Mil batidas na porta antes do salam.

É preciso insistir muito para que o avaro, que teme o dever de oferecer hospitalidade, abra a porta e cumprimente o visitante.

Desde o bater à porta até à despedida.

Frase feita que significa "absolutamente tudo", "de fio a pavio".

A segurança de um homem está em conter sua língua.

Alusão à necessária e sempre útil discrição.

O vento, ele deixa por contada tempestade e dorme tranqüilo.

Diz-se de alguém que não sabe guardar segredo e espalha-o.

Aperte-lhe a mão, mas confira os dedos depois.

Prevenindo contra uma pessoa desonesta.

Escapou do urso para cair no fosso.

Semelhante ao "saiu da panela para cair na frigideira".

            E pode-se dar o caso de provérbios que combinem diversos sentidos confundidos na mesma raiz:

Abandona-te em Deus e encontrarás a salvação.

Metáteses

            O ocidental já fica surpreso com a "imprecisão" e a extrema amplitude do campo semântico em torno dos radicais tri-consonantais árabes que, é evidente, para o próprio falante árabe são normais.

            Geralmente, o radical árabe é definido pelas três consoantes, alma da palavra árabe, e as vogais só fazem a articulação periférica do sentido. Um exemplo, calcado em português[24], ajudar-nos-á a compreender a clave árabe: é como se, para nós, fosse imediatamente claro não haver hiato semântico entre palavras nossas como carta, certo, curto e corta (pois a atenção estaria principalmente voltada para o "radical" C-R-T); ou, absoluto, obsoleto e basalto...

            A questão complica-se ao infinito, para o ocidental, quando ele descobre que ainda há mais: não só o radical trilítere é difuso, mas não é incomum que, por metátese, se lhe associem (ainda mais difusamente) outros campos semânticos.

            Freqüentemente, a metátese, isto é, a mudança de ordem das três consoantes, faz surgir uma nova raiz de significado relacionado com a original, como, em português, seria o caso de terno/tenro.            Entre nós, a metátese é rara ou casual; no Oriente é freqüente[25] e, muitas vezes, dotada de real (e encantadora) conexão de sentido. É o que se pode ver nos seguintes exemplos árabes:

    S F R (viajar)         F R S (cavalo)[26]

    K B R (fazer crescer)  B R K (abençoar)[27]  B K R (primogênito)

    Q M R (lua)            Q M (numerar, regrar)

    X R B (beber, brindar) B X R (alegrar-se, anunciar boa nova)

    B H R (mar)            R H B (amplo, espaçoso, ser bem-vindo)

    T F L (criança pequena)L T F (delicado, gracioso)

            A lista poderia prolongar-se mais e mais e é infinitamente sugestiva para a descoberta de relações reais, como também em outros exemplos, como:

            ' M L (fazer)                   ' L M (saber)

            H S N (bondade, doçura)         S H N (tratar bem, com bondade)

            X K R (agradecer)               K R X (entranhas)

            F R Q (separar)                 Q F R (deserto) FaQyR   (pobre!)

            Q B L (encarar, acolher, beijar) Q L B (coração)

            ' S B (amarrar) S ' B (ser difícil) ([28])

            Comum às línguas semitas, a metátese aparece como outro dos tantos recursos que não possuem algo correspondente nas línguas ocidentais, o que empobrece a tradução, perdendo-se saborosos jogos de linguagem próprios do Oriente. Como faz notar Strus[29], encontram-se várias metáteses nos relatos bíblicos vetero-testamentários: a primogenitura (BKR) é, na Bíblia, associada à bênção (BRK) e ao engrandecimento (KBR); a forma sonora de SaRaY, mulher de Abraão, remete, por metátese, à herança, ao herdeiro (YRSh), etc. Por vezes, os provérbios jogam com metáteses, como é o caso de:

'alim bila 'amil mithl al-gaym bila matar

(Sábio que não age, que não "produz", que não ensina,

é como nuvem sem chuva.)

            A mesma metátese aparece no Alcorão (11,46): Allah adverte contra o ato - 'ml - incorreto: não se deve pedir algo de que não se tem conhecimento - 'lm.

A imagem concreta

            Paul Auvray, em seu estudo sobre as línguas semíticas, analisa mais uma característica importante para entendermos os provérbios árabes[30]: um acentuado voltar-se para o concreto.

            Naturalmente, trata-se de uma questão de ênfase, pois - insisto - este voltar-se para o concreto não é apanágio árabe ou semita. É fenômeno humano, em alguma medida presente em todas as línguas.

            Auvray associa algumas peculiaridades da língua à conhecida observação de que "os antigos semitas não eram muito dados ao pensamento abstrato"[31]. Após lembrar que "são raras em hebraico as palavras verdadeiramente abstratas", dá alguns exemplos da língua bíblica que são também perfeitamente válidos para o árabe:

            "O vocábulo derek[32] mereceria um longo estudo. Sua primeira acepção é <<via>>, <<caminho>>, mas veio a significar também <<atividade>>, <<maneira de agir>> ou <<maneira de pensar>>' (cfr. Êx 18,29 e ss.; 23,17 ss.). A imagem encontra-se com freqüência nos Salmos e no Novo Testamento, em que o grego ódos adquire o mesmo significado. Mas, em numerosas passagens dos escritos mais antigos, tem-se a impressão de que a imagem concebia-se como tal [...]. Outro tanto poderia indicar-se a respeito da palavra rúah ([33]), que se traduz com freqüência, e muito precisamente, por <<espírito>>. Não obstante, sua acepção prístina é a de <<sopro>>, <<vento>>. Em muitos textos o autor parece evocar os dois significados, o que complica o trabalho do tradutor: Deus insufla no homem <<um sopro de vida>> ou <<um espírito de vida>> (Gên 2,7)".

            Um sugestivo exemplo é o mathal seguinte, em cuja tradução procurei conservar o sabor original árabe de frase nominal:

Pai dele, alho; mãe, cebola. Como pode ele cheirar bem?

Na indefectível e infinita imersão no concreto imaginativo do pensamento oriental, o comportamento é, antes de mais nada, associado ao aroma . O árabe, ainda hoje, diante do filho que lembra os pais, diz: "Min rihat umuhu" - ou "abuhu" -, do aroma de sua mãe (ou pai) e, há dois mil anos, o apóstolo Paulo (cfr. 2 Cor 2,15) escrevia que os cristãos devem ser "bonus Christi odor". Assim, o provérbio refere-se, de modo concreto, ao papel da família em relação ao comportamento dos filhos, enquanto o ocidental fala em abstrato: "herança de berço", "má-criação", "má-educação" etc.

            Este gosto pelo concreto potenciará os provérbios árabes, pois a imagem (evocada pelo mathal), mais próxima da realidade imediata, sempre tem mais força persuasiva do que a articulação de mediatos conceitos abstratos.

            Se todas as línguas trazem em seu léxico inúmeras associações metafóricas[34], no árabe este fato é muito mais patente. Para o árabe, a extensão de significado é, por assim dizer, "levada mais a sério" do que no Ocidente...

            É natural, por exemplo, que a palavra "olho" (e seus correspondentes nas diversas línguas...) preste-se, por extensão, a múltiplas associações e composições de significados. No entanto, em árabe, olho ('ayn) significa realmente "sol"[35]. Já no Ocidente, mesmo na Idade Média - época em que o pensamento europeu era profundamente alegórico[36] e em que vemos um Alcuíno definir[37], poeticamente, a lua como olho (oculus noctis) -, em nenhum momento a palavra "olho", na linguagem comum, passa a significar lua simultaneamente. É bastante ilustrativo o caso de um provérbio que no Ocidente é expresso em extremos de abstração, ao passo que o árabe, para o mesmo conteúdo, vale-se da forma radicalmente oposta: concreta, figurativa. O ocidental diz:

Quem o feio ama, bonito lhe parece.

Mais abstrato, impossível: "Quem", "o feio", "bonito"...

            Já a formulação árabe é:

Al-qurd b'ayn ummuhu gazal

(O macaco, aos olhos de sua mãe - é uma - gazela.)

            Sempre o concreto! Para expressar, por exemplo, que algo é dificultoso e infindável ("Isso - essa conferência, essa visita importuna, esse discurso - não acaba nunca!") evoca-se o mês do jejum:

Interminável como o Ramadã.

            O apego do oriental ao concreto obriga a manifestar materialmente as atitudes. A consideração deixa de ser abstrata quando se traduz de modo visível (o que constrange a minoria introvertida...): numa homenagem, deve-se elogiar/presentear ostensivamente; num velório, é necessário chorar convulsivamente; e, numa recepção, comer:

É no comer que se mostra a afeição (pelo anfitrião).

A ligação psicológico-gramatical com o passado

            Por fim, temos a última das sete características da língua/forma de pensamento árabe: um particular uso do passado, assim expresso por Aida Hanania[38]: "Outra característica, presente tanto no falar comum como nos provérbios, decorre da peculiar noção árabe de tempo. Como dizia Jamil Almansur Haddad: <<O árabe vê o passado como um bloco homogêneo. E vê o futuro como um bloco homogêneo [...]. O Ocidente faz [...] o contrário: faz essa atomização, essa dissecção, essa separação temporal, que inventou toda uma máquina de dividir o tempo (clepsidras, relógios e assim por diante, até chegar aos mecanismos atuais que medem centésimos de segundo). O contrário daquele complexo de infinito de árabes, de orientais, de todo o Oriente>>. É como se, nessa visão monolítica do tempo, o presente e o futuro não tivessem autonomia em face do passado, este, sim, determinante e determinador. Essa preponderância do passado repercute na gramática".

            A repercussão na gramática a que a autora se refere é um fato surpreendente: "A gramática árabe vale-se do passado até mesmo para expressar o futuro, que aparece, assim, como mera resultante do passado. Como diz o Eclesiastes (1,9): <<O que foi é o que será; o que se fez é o que se tornará a fazer: nada há de novo sob o sol!>> Se é fenômeno normal, em tantas línguas, o emprego do presente para falar do futuro (<<Vou jogar bola amanhã>>), ou mesmo para contar o passado (<<Em todo Natal, viajo>>), o uso do passado para referir-se ao futuro é aparentemente descabido. E, no entanto, é assim que a gramática árabe procede. O futuro é, para o árabe, até em termos gramaticais, determinado pelo passado e por ele expresso em sentenças proverbiais. Tal fato torna-se compreensível quando nos lembramos de alguns poucos exemplos de uso semelhante em nossa língua, especialmente em linguagem publicitária. Como a do jornal que, anunciando as vantagens de seus anúncios classificados, dizia: <<anunciou, vendeu>> (quem anunciar, venderá)"[39].

            Assim, provérbios árabes que traduzimos valendo-nos do presente são, na verdade, expressos em passado. Por exemplo, as antigas sentenças do poeta Qus Ibn Sa'ida, que traduziríamos por: "Quem vive, morre", "Quem morre, finda" etc., dizem, na verdade, literalmente: Quem viveu, morreu. Quem morreu, findou. (Man 'asha mat ua man mata fat)

Os provérbios e a ética

            Os sete aspectos do sistema língua/pensamento árabe que comentei brevemente nos ajudam a compreender o alcance e o significado dos amthal para a educação e a cultura orientais. Para a milenar sabedoria oriental, os amthal são a perfeita tradução em termos pedagógicos e de comunicação do sistema língua/pensamento semita, ajustando-se perfeitamente a suas características: o voltar-se para a imagem concreta e o recurso à experiência, ao passado etc. Para o ocidental - sempre tipicamente falando -, uma discussão se encerra quando se chega a um argumento lógico abstrato; para o oriental, pelo contrário, prevalece a imagem. Se um Aristóteles fosse indagado sobre "o próximo", ele responderia: "A diz-se próximo de B, se, e somente se, ocorrerem as seguintes condições...". Quando, porém, indagaram a Cristo[40] pelo próximo, Ele respondeu com um mathal, a parábola do bom samaritano: "Um homem descia de Jerusalém a Jericó...".

            Em meu modo de ver, o importante papel que os provérbios podem exercer sobre a educação moral é um tema que, embora até recentemente menosprezados por certos setores da investigação universitária[41] parecem, hoje, ter ocupado um merecido lugar de destaque no meio acadêmico. De fato, desde o início da década, observa-se no Brasil um crescente clamor por ética e moralidade, eco de uma renovação mundial de interesse pela ética.

            Por outro lado, é visível "a significação especial" que os estudos sobre cultura popular adquirem na educação pós-moderna: "tradições milenares são consideradas as mais audazes e indispensáveis"[42].

            É evidente que quando, aqui, falo em educação moral, penso em algo bem distinto daqueles - mais ou menos inócuos - conteúdos tradicionalmente veiculados pela disciplina "Educação Moral e Cívica"... Aliás, nem sequer estou me reportando à educação formal, que se ministra na escola, mas à "Educação Invisível", para usar a expressão do educador espanhol García Hoz[43], influência que se dá no convívio familiar e social.

            Tudo o que afirmo aqui sobre os provérbios árabes vale também para os provérbios ocidentais ou de qualquer outra cultura. A sentença de Lunde & Wintle é sempre verdadeira: "Perhaps the quickest way to understand a people or a culture is to learn their proverbs" ([44]). Contudo, a relação da cultura árabe com os provérbios é diferente. Trata-se de uma afinidade especial, muito mais intensa: o provérbio espelha o próprio núcleo da forma de pensamento árabe.

            Provérbios existem em todas as culturas e também no Ocidente; mas não tão copiosamente e, sobretudo, não com a força psicológica e educativa que exercem no Oriente, que os potencia e lhes dá um importante papel pedagógico, a tal ponto que podemos falar numa Pedagogia do mathal.

            Imediatamente decorrentes da própria forma de pensamento, dão-se em estado, por assim dizer, "quimicamente puro" na tradição árabe.

            Conhecer provérbios é, no Oriente, conhecer a vida: "Un homme ou une femme qui ne savaient pas plusiers centaines de proverbes et qui n'étaient pas capables de les débiter séance tenante, étaient alors regardés comme ignorants. On m'affirme[45] que cet usage est encore vivant dans bien des villages libanais et dans d'autres pays de langue arabe"[46].

            Enquanto agentes privilegiados da educação invisível, os provérbios recolhem o saber popular, condensam a experiência sobre a realidade do homem: sua existência quotidiana, as condições de vida, o sensato e o ridículo, as alegrias e as tristezas, as grandezas e as misérias, a realidade e os sonhos, a objetividade e os preconceitos...

            Mais do que qualquer outra expressão literária, os provérbios têm, freqüentemente, o dom de incidir sobre aquele núcleo permanente, atemporal da realidade do homem. E daí, também, decorre sua perene atualidade. Demasiadamente impressionados por sociologismos, relativismos e historicismos, tendemos a não compreender outras culturas e épocas passadas, e a pensar que somos muito originais, quando, na verdade, o que realmente ressalta dos estudos históricos e antropológicos é, não a diferença, mas a identidade. Para além das concretas formas históricas [47], está lá o mesmo homem, com suas grandezas e mediocridades...

            O mesmo homem, por vezes decifrado em provérbios geniais. Por mais diversas que sejam as épocas, as latitudes ou as tribos, sempre encontraremos, essencialmente, pesadas críticas e ironias contra o egoísmo, a avareza, a inveja, a pequenez etc. e - invariavelmente também - o louvor da generosidade, da sinceridade, da grandeza, da lealdade etc. São fatos constantes em todas as culturas.

            Feita esta introdução, passamos à seleção de 250 provérbios árabes...


[1]. Consulte-se FEGHALI, Michel. Proverbes et Dictons Syro-Libanais, Paris, Institut d'Ethnologie, 1938 (3.048 provérbios), e FREYHA, Anis. A Dictionnary of Modern Lebanese Proverbs, Beirut, Librairie du Liban, 1974 (4.248 provérbios). Além de serem autores extremamente criteriosos, apresentam edições bilíngües - Feghali (árabe/francês) e Freyha (árabe/inglês). Em sua maioria, são provérbios especificamente libaneses. Um ótimo estudo sobre as peculiaridades do Líbano (também no que se refere a provérbios) encontra-se em HANANIA, Aida R. "O Líbano e a Montanha - Vozes da Montanha", em LAUAND, L. J. (org.). Oriente e Ocidente: O Literário e o Popular, São Paulo, EDIX/DLO-FFLCH-USP, 1995. Freyha, por exemplo, limitou-se a recolher seus amthal em Ras al-Matn, uma das pequenas aldeias incrustadas no Monte Líbano.... Mas, observa em seu Preface, "it is safe to state that the common popular ones (proverbs) are known throughout the Arabic speaking world" (p. vi). Como fontes auxiliares (ou de contraste), utilizei - entre outras - as seguintes excelentes coletâneas: NASR, Helmi, M. I. "Uma seleção de provérbios árabes" em LAUAND, L. J. (org.). Oriente e Ocidente: O literário e o Popular, São Paulo, EDIX/DLO-FFLCHUSP, 1995; KHOURY, George. A Dictionary of World Proverbs, Beirut, The Arab Institute for Research and Publishing, 1992; HAJJAR, Joseph N. Mounged des proverbes, sentences et expressions idiomatiques, Beyrouth, Dar el-Machreq, 1986; FINBERT, Elian-J. Le livre de la sagesse Arabe, Paris, R. Laffont, 1948; BELAMRI, Rabah. Proverbes et Dictons Algériens (bil.: árabe/francês), Paris, L'Harmattan, 1986. Neste último caso, embora se trate de provérbios argelinos (eventualmente com influência berbere - e este é também o caso de outra autora de quem recolhemos alguns amthal: AMROUCHE, Marguerite Taos. Le Grain Magique, Paris, François Maspero, 1966), são provérbios tipicamente árabes. Veja-se também: DELICADO, Antônio. Adágios Portuguezes reduzidos a lugares communs, Lisboa, Officina de Domingos Lopes Rosa, 1651, livro que apresenta milhares de provérbios portugueses da Idade Média a meados do século XVII.
[2]. A tradução do conceito - central para este estudo - de mathal (plural: amthal) pode ser aproximada pelos nossos "provérbio", "comparação", "parábola" etc. Aqui, enfatizarei a dimensão "provérbio" do mathal).
[3]. Em CHALITA, Mansour. As Mais Belas Páginas da Literatura Árabe, Rio de Janeiro, A.C.I.G., 1973, p. 226.
[4]. Entrevista à Revista de Estudos Árabes, São Paulo, v.1, n.2, p. 14.
[5]. Oriente e Ocidente: Língua e Mentalidade, S. Paulo, Centro de Estudos Árabes FFLCH-USP/APEL, 1993, p. 17.
[6]. "Oriente e Ocidente: Língua e Mentalidade", em Revista de Estudos Árabes, São Paulo, Centro de Estudos Árabes FFLCH-USP, v.1, n.1, jan./jun. 1993, p. 64.
[7]. O texto fundamental, no caso, é o artigo de Lohmann "Santo Tomás e os Árabes - Estruturas lingüísticas e formas de pensamento", em Revista de Estudos Árabes, Centro de Estudos Árabes/FFLCH-USP, São Paulo, Ano III, n. 5-6, pp. 33-51. Tit. orig.: "Saint Thomas et les Arabes (Structures linguistiques et formes de pensée)", em Revue Philosophique de Louvain, t. 74, fév. 1976, pp. 30-44. A tradução foi realizada por Ana Lúcia Carvalho Fujikura e Helena Meidani.
[8]. Lohmann, art. cit., p. 38. Embora seja muito radical a posição de Lohmann, não resta dúvida de que há - senão uma determinação - pelo menos um forte condicionamento do pensamento pelas estruturas da língua. Talvez fosse melhor falar em interação dialética, na medida em que também o pensamento influencia a formação da língua.
[9]. Art. cit., p. 35.
[10]. Em contextos muito determinados, como em certas manchetes de jornal: "Empresa tal em concordata", "Mais dois sul-americanos classificados" ou na linguagem telegráfica: "Estoque hoje mil unidades", "Melhores votos novo casal" etc.
[11]. Na maioria das línguas ocidentais o que o português indica por estar é expresso pelo próprio verbo ser. Não é fácil, por exemplo, traduzir para o inglês ou para o francês - sem perda da força da formulação sucinta -, a famosa declaração do Prof. Eduardo Portela, poucos dias antes de deixar o cargo: "Eu não sou ministro; eu estou ministro!".
[12]. Como indica Aida R. Hanania em nosso citado capítulo "Oriente e Ocidente...": "São ilustrativas, a propósito, as sínteses que faz Graciliano Ramos em Vidas Secas, onde o caráter lacônico e áspero da linguagem (frases rápidas, sem verbos de ligação e, muitas vezes, de ação) espelha o cáustico Nordeste e o perfil psicológico de sua gente".
[13]. Busca que ocorre, por excelência, no caso do grego clássico.
[14]. Devo estes dois exemplos ao Prof. Dr. Helmi M. I. Nasr. Os originais são rimados.
[15]. Em Os Pensadores (vol. XLV - Sartre-Heidegger), São Paulo, Abril, 1973.
[16]. Pensemos não só nos indicadores lógicos usuais ("se..., então", "portanto", "pois" etc. etc.) mas também, por exemplo, no complexo jogo de marcação do discurso pelas partículas gregas.
[17]. Orientalização que se realiza também pela evocação de semitismos, como nos versos "É a chuva chovendo...", "É o vento ventando..."
[18]. Art. cit., p. 36.
[19]. MARÍAS, J. La felicidad humana, Madrid, Alianza Editorial, 1988, pp. 16-17.
[20]. Como se sabe, o radical tri-lítere é que é a alma da palavra semita. Cfr. Oriente e Ocidente: Língua... p. 19 e ss.
[21]. Confundem-se na linguagem, no pensamento e... na própria realidade.
[22]. Nesse sentido primário de Salam/Shalom, como união, integração, remoção de barreiras, entende-se melhor a sentença - um dos tantos semitismos no grego neo-testamentário - do apóstolo Paulo: "Cristo, nossa paz, que de dois fez um, derrubando o muro que os separava" (Ef 2,14). Se, para um ocidental, esta sentença é enigmática, para um semita ela é clara: nossa paz é o mesmo que "nosso integrador".
[23]. Assim se compreende que sullum seja a escada, a que faz a união.
[24]. Que não deixa, sem dúvida, de ter suas limitações...
[25]. O que, para usar outra metátese casual brasileira, desorienta/desnorteia o ocidental.
[26]. É evidente a relação entre viagem e cavalo. Esses radicais geraram duas palavras conhecidas nossas: um tipo de excursão, SaFaRi, e certa patente antiga do exército, al-FeReS.
[27]. Já Q L L, ser pouco, é também desprezar e, no hebraico bíblico, amaldiçoar!
[28]. Estes exemplos encontram-se em MELONI, Gerardo. Saggi di Filologia semitica, Roma, Casa Editrice Italiana, 1913.
[29]. STRUS, Andrzej. Nomen-omen, Roma, Biblical Institute Press, 1978.
[30]. AUVRAY, Paul et al. Las lenguas sagradas. Trad. del orig. francés - Les langues Sacrées - por Juan A. G. Larraya. Andorra, Casal i Vall, 1959, p. 36 e ss.
[31]. Mais do que as diversas incidências gramaticais dessa atitude (que o autor explora em seu capítulo sobre a estilística semita), interessa-nos aqui a própria atitude em si mesma.
[32]. Em árabe, taríq.
[33]. Em árabe, ruh.
[34]. O Prof. Alfredo H. Allanson Alves escreveu um estudo sobre um caso típico de extensão de sentido no Ocidente, o da palavra board na língua inglesa: "A board, a long narrow piece of sawn timber less thick (under 2 1/2 inches) than a plank came to mean, among many other things, a body of men sitting in council to deliberate on important matters, the Board of Trade, the Electricity Board etc. How did this metamorphosis come about?...". Cfr. ALVES "Board" em LAUAND, L. J. Filosofia e Linguagem Comum, Curitiba, PUC-PR, 1989, p. 23 e ss.
[35]. Além de "fonte", "a elite", "riquezas" etc. Devo esta nota ao Prof. Dr. Helmi M. I. Nasr.
[36]. O pensamento teológico medieval, sobretudo na Primeira Idade Média, tende à alegoria em geral e a uma leitura profundamente alegórica da Bíblia (cfr. LAUAND, L. J. Educação, Teatro e Matemática Medievais, S. Paulo, Editora Perspectiva/Edusp, 1986 e LAUAND, L. J. O Xadrez na Idade Média, São Paulo, Perspectiva/Edusp, 1988). Tal fato é, em sua origem e em seu significado, oriental, helenístico: estabelecido, desde fins do século III, pela "Escola de Alexandria" (que abriga autores tão importantes como Clemente ou Orígenes) e, posteriormente, pelos escritos - que tanta influência tiveram no pensamento medieval - de Pseudo-Dionísio Areopagita, etc. (Cfr. também GILSON, E. La Filosofia en la Edad Media (caps. I.3 e I.5), 2a. ed., Madrid, Gredos, 1972; PIEPER, J. Scholastik (cap. III) 2. Aufl., München, DTV, 1978; LAUAND, L. J. O Significado Místico dos Números, Curitiba/S.Paulo, Edit. PUC-PR/GRD, 1992.
[37]. Pippini regalis et nobilissimi juvenis disputatio cum Albino scholastico, PL 101, 975-980, em LAUAND, L. J. (org.) Clássicos: pequenos textos do Oriente e do Ocidente, São Paulo, EDIX/DLO-FFLCH-USP, 1995, p. 13.
[38]. "Prefácio" a LAUAND, L. J. Provérbios Árabes, S. Paulo, DLO-FFLCH-USP, 1994.
[39]. HANANIA, A. R., em LAUAND, L. J. Oriente e Ocidente: Língua e Mentalidade, S. Paulo, Centro de Estudos Árabes FFLCH-USP/APEL, 1993, pp. 27-28.
[40]. A língua materna de Cristo, o aramaico, pertence, como o hebraico, à mesma família semitíca e é, portanto, semelhante ao árabe, traduzindo também uma forma de pensamento semelhante.
[41]. "Moral" (tal como era entendida...) não condizia com o espírito libertário pós-68 e provérbios, enquanto cultura popular, era também objeto de preconceitos por parte do pedantismo das "elites" ...
[42]. GARCIA HOZ, Victor. Pedagogia Visível - Educação Invisível, São Paulo, Nerman, 1988, pp. 28-29.
[43]. Ibidem.
[44]. LUNDE, Paul & WINTLE, Justin. A Dictionary of Arabic and Islamic Proverbs, London, Routledge & Kegan Paul, 1984, p. vii.
[45]. Feghali estava, então, radicado na França.
[46]. FEGHALI, Michel. Proverbes et Dictons Syro-Libanais, p. xi.

[47]. E dos cacoetes, viseiras e preconceitos coletivos de cada época e cultura.